segunda-feira, 18 de junho de 2012

Solteiro não é E.T.

Hoje, 12 de junho, comemora-se o dia dos namorados no Brasil, mas é preciso adverti-lo, querido leitor, que esta crônica não é nada romântica.
Não que eu tenha perdido o lirismo ou que ache esta data ridícula. Longe disso! Na verdade, tenho que admitir que eu gostaria muito de ter alguém que me mandasse flores nesta manhã de outono e que eu tivesse a oportunidade de usar novamente aquele meu maravilhoso aparelho de fondue. Mas nada disso aconteceu. Aquele que se diz meu “namorado” já tem namorada e, portanto, não terei jantar romântico e as flores que vi nas mãos dos entregadores, não eram para mim.
Incomodada com a data? Não exatamente.
Aliás, a título de informação, parece que ela foi criada em São Paulo em 1949 numa tentativa de alavancar o comércio.
Pronto! Eis aqui uma boa desculpa para os namorados duros (ou pão-duros) que não compraram presentes para seus respectivos, ou para os solteiros que não querem dar o braço a torcer de que esta data, na verdade, incomoda sim:

O dia dos namorados é uma data a serviço do capitalismo e você não é um vendido para entrar neste jogo.

Não convenceu? Pois é... A mim também não.
Busquei outros argumentos a partir de músicas de e para solteiros, mas as que achei eram todas tão machistas! E tem outra coisa... É fácil constatar que, para cada canção ou filme enaltecendo a solteirice, há outras “trocentas” poesias, letras e películas sobre o amor.
Será que Tom Jobim estava certo ao afirmar que é impossível ser feliz sozinho?
Poderia responder apenas por mim, mas sobre isso eu tenho escrito em várias outras postagens anteriores.
No entanto, com o intuito de defender minha “categoria”, refleti um pouco, perguntei a alguns amigos e fiz uma breve pesquisa na internet para formular uma pequena lista com algumas vantagens da vida de solteiro(a). Ei-la:

   ·   Liberdade no planejamento dos finais de semana, feriados e férias e na escolha do filme;
   ·     Escolher comer pizza no café na manhã, chocolate no almoço e apenas uma fruta ou um leitinho morno como jantar. Ou qualquer outro cardápio que lhe apetecer;
   ·        Posse sobre o controle remoto;
   ·        Ter a cama toda só para você;
   ·        Entrar e sair de casa na hora que quiser;
·        Mudar os móveis de lugar cada vez que lhe der na telha;
·    Os gastos são apenas com você mesmo(a) e você não tem que vá querer controlar o SEU dinheiro;
·    Mudar de ideia 153.431.843.741.234 de vezes por dia, sem ninguém para lhe chamar de louco(a);
·        Dormir em qualquer lugar da casa;
·        Pintar uma parede de cada cor;
·        Deixar calcinhas ou cuecas no boxe;
·        Não ter a obrigação de estar sempre depilada, cheirosinha e atraente;
·        Poder dar vazão as suas manias mais estranhas sem incomodar ninguém;
·     Sair de casa e saber que a sua bagunça ou a arrumação que você fez vai estar exatamente do jeito que você deixou quando voltar;
·        Não sofrer com ciúmes, inseguranças, saudades e afins;
·   Não sentir-se culpado(a) por não poder dar atenção ao seu par quando precisar dedicar-se ao trabalho ou ao estudo;
·        Paquerar e deixar ser paquerado(a) sem constrangimentos;
·        Estar aberto(a) a conhecer pessoas diferentes.
·        Respeitar suas vontades;
·        Não ter sogra.
·        Possuir um leque maior de possibilidades.
·        Sentir-se livre.

Contudo, apesar da solteirice ser uma escolha individual que não diz respeito a ninguém ou, por outro lado, uma obra do acaso, independente da vontade do indivíduo, é perceptível que pessoas solteiras, muitas vezes, sofrem discriminação.
Acredito que há em todas as sociedades humanas existentes -  e na brasileira não é diferente - uma verdadeira imposição social de se estar acompanhada para ser aceito em alguns ambientes
Discorda? Provavelmente é porque você tem um par e sai pouco com solteiros ou você é solteiro e anda pouco com casados ou acompanhados.
Só para ilustrar, vou partilhar uma situação que testemunhei.
Recentemente fui a uma festa muito divertida de um grupo de ex-alunos de uma escola, que estudaram juntos há mais de vinte anos atrás e que se reencontraram graças às redes sociais.
O grupo vem se reunindo periodicamente há alguns anos. A partir desses encontros alguns de nós conseguimos retomar antigos – e fortes – laços de amizade. Outros se "reconheceram" a partir dessa convivência. O grupo tem uma energia muito boa e eu, particularmente, me sinto maravilhosamente bem na companhia deles. Comecei a frequentá-lo quando ainda estava casada.
Tudo transcorria na mais perfeita paz enquanto o grupo era pequeno e todos se conheciam. No entanto, na última festa, outros membros – também ex-alunos – foram incorporados ao grupo e, como era uma escola bem grande, a maioria dos recém-chegados não foi reconhecida pelos membros mais antigos. Além disso, cometiam dois grandes pecados: eram solteiros e muito animados.
Pronto! Criou-se um mal-estar.
Como sou muito desligada, nada percebi durante a festa. Só me liguei quando ouvi uma amiga falando em voz alta: “Solteiro não é E.T.!”
A frase era uma resposta ao desabafo de outra amiga que revelava que algumas pessoas antigas do grupo poderiam estar incomodadas com a presença de novos (e solteiros) membros.  
Ao viver esta situação, comecei a refletir e "caiu a ficha" que, para algumas, solteiro não pode se divertir entre pessoas casadas. Solteiros não podem ter amigos de outro sexo, pois sempre terão segundas intenções. Solteiro deve-se desculpar por existir, mas já que existe, deve conter-se, ser triste.
Comecei a perceber que solteiros e solteiras são consideradas pessoas de outra qualidade. Qualidade inferior em relação aos casados, diga-se de passagem.
Já no seio da família, o solteiro não é levado a sério. Por não ter formado seu próprio clã, não tem vida própria e, já que não tem responsabilidades, deve estar sempre disponível para ajudar a todos.

Mas nem tudo está perdido. Enquanto o debate saudável entre casados e solteiros acontecia na tal festa, ouvi uma voz amiga (casada) que dizia: “Gente, isso não tem nada ver! Se eu apresentei e coloquei o meu marido no meio dos meus amigos é por que confio muito nele e não me sinto nem um pouco ameaçada em relação ao meu casamento”.
Bingo! Ela foi ao ponto da questão: o incômodo de algumas pessoas  poderia ser fruto da insegurança. Sendo assim, lanço o desafio aos meus queridos amigos casados e acompanhados: Resolvam-se antes de sair de casa. Digo mais, não se esqueçam de que na vida moderna, o estado civil é uma conjuntura. Dias desses, querendo ou não querendo, você pode estar do lado de cá.


Niterói, Brasil, dia dos namorados de 2012.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Se meu apartamento falasse

Amanhã deixarei este apartamento. Confesso que estou me sentindo meio nômade. Afinal, desde que saí da casa dos meus pais, há sete anos, estou fazendo minha quarta mudança.
Aliás, mudar é só o que tenho feito nestes últimos anos. Mudei de endereços, de estado civil e de espírito, de estilo de vida, de faixa de renda, mudei minha visão sobre o mundo e a política. Mudei, principalmente, o meu conceito sobre mim mesma.
Mas falemos sobre este ap. Vim para cá depois que me separei. Após um ano sozinha nele, tive a experiência de ter uma roommate. Eu e a Cris - que até então era apenas a “amiga de uma amiga”, ou seja, praticamente uma desconhecida – passamos a dividir o mesmo banheiro, a mesma geladeira, a mesma sala, a mesma máquina de lavar roupa, as contas e, a medida que íamos nos conhecendo, começamos a dividir também confissões em torno dos dramas e das expectativas de ser mulher solteira. No entanto, a passagem dela por aqui foi breve e fiquei by myself nestes cômodos boa parte do tempo.
E assim engrossei as estatísticas que mostram que viver sozinha(o) é uma tendência mundial. 
    De acordo com estudos publicados, cada vez mais homens e mulheres moram sozinhos. Na Inglaterra, o índice de domicílios habitados por uma única pessoa é de 30%. Nos Estados Unidos, alcança os 25% - em Nova York, a “Meca” dos solteiros, mais da metade da população (50,6%) vive só. No Brasil, o número de indivíduos que moram sem companhia também aumenta a cada ano. Segundo a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2008, 11,6% dos brasileiros não dividem o teto com ninguém[1].
Outra pesquisa sobre o tema revela que quem vive sozinho está longe de ser solitário, pelo contrário, possui até mais amigos de quem está casado ou mora em um coletivo. Tem ainda o estudo conduzido pela professora de sociologia Erin Cornwell, da Universidade de Cornell, entre 2000 e 2008, que descobriu que pessoas com mais de 35 anos morando sozinhas seriam mais suscetíveis a ir a um evento social noturno com vizinhos e amigos do que aquelas casadas ou que viviam com seus parceiros[2].
Se tivessem me entrevistado talvez respondesse que, de fato, tenho saído mais agora, que estou solteira, do que quando era casada. Contudo, aprecio muito minhas esbórnias domésticas.
Diversas vezes minha cozinha se transformou num verdadeiro espaço gourmet onde o meu amigo Mauro deu vazão aos seus dotes culinários. Eu, Lilian e Shirley apreciávamos de bom grado estes momentos regados a vinho e ótimos – e politicamente incorretos - papos furados. Teve também aquela maravilhosa noite japonesa produzida pelo sushiman Otávio. Pena que foi só uma vez, não é mesmo, Camille e Thaís?
Outras vezes, minha sala se transformou num pequeno cinema. A Fabricia foi a frequentadora mais habitué, mas também compareceram o casal Roberta-Clóvis. E por falar em casal, foi neste ap que abri meu coração para os amigos Abdala e Simone num dia verdadeiramente triste.
Várias pequenas festas foram feitas aqui.  Destaque para minha celebração de descasamento onde festejei o fim de um bom ciclo da minha vida. Teve também aquele aniversário que comemorei com um workshop de produtos eróticos. Dias depois, um casal amigo experimentou alguns dos produtos na MINHA cama!
Festinhas individuais foram comuns também. Nestas, eu queria desfrutar da minha própria companhia.
Em outras situações, a festa era a dois e o meu quarto se transformava numa alcova. Um ou outro, por ter conseguido chegar ali, passou a se achar dono do pedaço. Como sou dessas mulheres que dizem sim, fiz suas vontades, disse meias verdades à meia luz. Fiz-lhe vaidoso e deixe-o supor que era o maior e que me possuía. Mas tão logo se mostrava despreparado para encarar este mulherão complexo que sou, era descartado do meu folhetim. Outros, confesso, gostaria que tivessem ficado mais. Na verdade, um em especial. O cara mais doce que conheci tinha um jeito manso só seu. Ele roubou os meus sentidos, violou os meus ouvidos com tantos segredos lindos e indecentes. Durante algum tempo, eu fui sua menina e ele foi o meu rapaz. Meu corpo e este apartamento foram testemunhas do bem que ele me fez.
Mas amanhã entregarei as chaves do meu lar. Algumas dessas lembranças ficarão fixadas aqui, nas paredes destes cômodos e outras tantas nas paredes da minha memória. Móveis, roupas e eletrodomésticos foram doados. Não há espaço na minha nova morada temporária. Joguei fora cartas e fotografias de gente que foi embora. Espero que a nova casa fique bem melhor assim.
Por uma temporada de seis meses não mais morarei sozinha. Por uma escolha que fiz, ficarei abrigada na casa da minha irmã. Terei o carinho e o cuidado dela e da minha sobrinha numa situação que, em breve, necessitarei de cuidados especiais.
As esbórnias domésticas serão suspensas temporariamente. Não haverá momentos de alcova, espaço gourmet, tampouco terei tanta liberdade em promover sessões de cinema para os amigos.
No entanto, uma sensação de vida que segue está me invadindo agora.
Milan Kundera afirmou em seu maravilhoso livro A Insustentável Leveza do Ser que "a nossa vida não é como um rascunho, a gente não pode simplesmente amassar o papel e começar tudo novamente." Concordo que não há possibilidade de fazer rascunhos na vida, afinal só vivemos vivendo. Mas acredito que sempre há possibilidade de recomeços. Este é apenas mais um para mim.

Niterói, madrugada do dia 30 de maio de 2012.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Castelo de cartas

Eu te avisei, moço. Não sou tão bem resolvida quanto pareço.
É fato que as rédeas da minha vida estão sob o meu comando na maior parte do tempo. É certo também que o sorriso no meu rosto e o meu bom astral - que você tanto elogia - não são forçados, mas são frutos de uma vida independente e mais ou menos feliz.

       No entanto, às vezes, sinto-me como um castelo de cartas. Estou de pé, equilibrada, bem construída. Mas basta um vento, um peteleco, um leve balançar em minhas bases para que eu comece a desmoronar.


Uma notícia ruim, seguida de outra. O cansaço do dia-a-dia, a ausência ou a distância de pessoas queridas. O excesso de responsabilidades. A falta de um cafuné num dia de chuva. Uma TPM forte. Uma gripe. Um filme triste ou até um comercial de margarina podem me transformar na mais chata das mulherzinhas.
E foi isso que aconteceu. Quando eu menos esperava, fui invadida por um estranho desejo de ser salva. Nos últimos dias aflorou em mim um forte complexo de Cinderela. Ansiei por alguém que amenizasse o choque entre o mundo adulto e eu.
Tenho plena consciência que este desejo é fruto de memórias e atitudes distorcidas que grande parte das mulheres vivenciou na infância, ou seja, na crença de que uma menina sempre terá alguém mais forte para sustentá-la e defendê-la.
Vejo amigas queridas, mulheres como eu, milhares e milhares de nós, criadas de modo que nos impossibilitam encarar a realidade adulta e assumir a responsabilidade por nós mesmas. Mas esta independência cansa e assusta. Como Cinderela, muitas mulheres de hoje ainda esperam por algo externo que venha transformar suas vidas. De quando em vez, sinto-me tão desamparada que me pego ligando para a minha mãe pedindo colo e só de ouvir um gostoso "estou aqui, minha filha", já me sinto cuidada. 
Mas, "gato", não se preocupe. A farmácia já entregou os medicamentos que a doutora me receitou para combater o quadro de estresse que baixou minha imunidade, trazendo gripe, e que deixou o meu corpo cheio de caroços. No entanto, preciso confessar que o melhor “remédio” foi sua presença ao meu lado hoje de manhã. Ter você na sala de espera, foi muito bom!
Ah... Uma última coisa: fiquei curiosa para saber se você estava preparado para conhecer e cuidar desta minha versão “princesinha indefesa”. Afinal, nós, mulheres, ainda somos cinderelas, mas vejo que o homem de hoje já deixou de ter a postura de príncipe encantado há muito tempo. Sorte de vocês.


Niterói, 15 de maio de 2012.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

No sense

Eu gosto das pequenas viagens de ônibus. Quando essas duram até seis horas, chego a preferir ônibus a carro ou avião. Aprecio-as ainda mais quando estou sozinha.
Como raramente eu consigo dormir e ultimamente tenho sentido enjoo quando tento ler em ônibus, nada me sobra para fazer. E assim, neste ócio imposto, me entrego às reflexões e devaneios.
Tendo como cenário a paisagem que vejo através da janela, meu pensamento vai mais longe do que aquela casinha lá no topo daquele morro. Rostos, casas, animais, praia, pasto, placas, carros e tantas outras coisas que avisto apenas de relance, me fazem pensar nas infinitas possibilidades da vida humana. Aproveito estes momentos de devaneio para avaliar e criar novas perspectivas para a minha própria vida.  Dependendo do meu estado de espírito, sorrio ou choro sozinha com as minhas reflexões.
No domingo passado fiz uma dessas pequenas viagens. Um trajeto que conheço a minha vida toda, mas que sempre me comove e encanta.
A despeito da minha recém-tendência a enjoar, comecei a folhear um livro de coletânea de poesias pornográficas. Estava me divertindo com a linguagem chula e me surpreendendo com as abominações próprias deste tipo de escrita. De vez em quando eu parava a leitura para olhar pela janela e me entregava às minhas queridas e desejadas reflexões – como pode você imaginar, nada muito “puro”.
Eis que, com pouco mais de meia hora de viagem, o ônibus para e entra mais uma passageira. O motorista avisou que não havia mais lugares disponíveis. Ela, no entanto, entrou assim mesmo e sentou no chão, no degrau ao lado dele - eu estava sentada a dois ou três bancos atrás do motorista, ou seja, muito perto de minha nova colega de viagem.
Foi aí que começou o meu inferno...
A tal mulher deu início uma conversa com o motorista que mais parecia uma pregação interminável sobre céu, inferno, Jeová, Jesus, pecado, livre arbítrio, dentre outras coisas do gênero. Com uma soberba inabalável, citava versículos do evangelho e cada vez mais animada, sua voz ia aumentando de volume. Chegou a pregar tão alto e com tanta propriedade que conjecturei, infeliz, a condenação de minha pobre alma pecadora.
No entanto, voltei à razão e vi que o projeto de pastora é que estava discursando no lugar errado. Minha irritação foi crescendo, crescendo a ponto de eu, sem sentir, pensei em voz alta e soltei “que mulher sem noção!”.

Para discorrer sobre o tema, usarei a brilhante definição elaborada pela minha amiga Ana Cristina:

“Sem noção”: condição que acomete pessoas de todas as classes sociais. Algumas pessoas nascem sem noção, outras manifestam apenas em determinadas ocasiões (em restaurantes, por exemplo, quando destratam garçons). A principal característica dos "sem noção" é não dispor em seu organismo - em especial no cérebro - um dispositivo que leve à reflexão antes de falar e/ou agir. Ou seja, os "sem noção" não reconhecem que são inconvenientes, desagradáveis, e que levam os seus amigos, ou as pessoas à sua volta, a sentirem "vergonha alheia".
Pense comigo. As pessoas estão “presas” num ônibus. Talvez elas esperem usar este tempo para tirar uma soneca, relaxar, fazer palavras cruzadas, pensar em qualquer coisa ou em coisa alguma, ler poesia pornográfica, conversar com seu companheiro de viagem ou seja lá o que for  e surge alguém para perturbar o silencio de sua viagem? Não é um simples trajeto de ônibus. É uma viagem! Você tem um destino mais ou menos longe da sua casa. Não dá para pedir para o motorista parar o ônibus para você descer.
Cotidianamente nos deparamos com os “sem noção”. Eu mesma já fui bastante inconveniente quando insistia em me fazer de engraçada e acabava fazendo brincadeiras ou comentários completamente dispensáveis. Mas ainda bem que tenho bons amigos que me apontaram de maneira muito carinhosa este desvio de conduta e assim, com uma boa dose de esforço diário, tenho tentado pensar e me colocar no lugar do outro antes de falar e fazer certas coisas.
Apesar de ser uma otimista incorrigível, percebo que temos vivido um período de individualismo muito exacerbado e com isso as pessoas têm perdido a capacidade de autocrítica. São tantos exemplos de pessoas ou situações “sem noção” que daria para escrever um livro ao invés desta crônica, mas vamos a alguns poucos:
Sem noção é aquela pessoa que não cede o lugar a um idoso, a um portador de deficiência ou a uma mulher grávida no transporte público. É alguém que faz uma visita levando o seu cachorro sem ao menos perguntar se o visitado - que, a propósito mora num apartamento - se incomodaria. É aquele torcedor que comemora a vitória do seu time gritando na rua às 23 horas de um domingo. É o dj de ônibus. É aquela pessoa que fala alto no museu, no teatro, no cinema. Totalmente sem noção é quem ri e faz piada da desgraça alheia. É o cara ou a mulher “que não trepa, mas não sai de cima”. Tem também a modalidade "casal sem noção" que resolve discutir a relação em público. Sem noção é quem pede dinheiro emprestado a um amigo ou familiar sem ter pago a dívida anterior. Tem aquele típico “sem noção” em seus carros com auto-falantes possantes que esquecem que a praia e a rua são de todos e botam a tocar ritmos de gosto duvidoso – me perdoem o elitismo – a uma altura tão absurda que você acha que o seu coração vai pular pela boca. Sem noção é o estudante que diz “hoje tem prova de quê?”. É fazer listinha de compras para alguém que está indo viajar de férias. É aquele que quer ter uma conversa séria às 22 horas de uma sexta-feira. É quem propõe reunião de trabalho no sábado de manhã. É quem vive reclamando da vida. É quem monopoliza a conversa. É quem escreve demais.
E assim, tentando deixar de ser uma no sense adianto-me a fechar este texto recomendando o cultivo de uma qualidade importante para o ser humano, mas que anda meio esquecida: a empatia, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro. Afinal de contas, como já diz um certo José Datrino, mais conhecido como Profeta Gentileza, um sem noção do bem:






segunda-feira, 23 de abril de 2012

O Kula urbano

De hoje não passa! Vou fazer um bolo de cenoura. Além de uma vontade enorme de comê-lo, quero também devolver o prato de sobremesa que minha vizinha me entregou com três panquecas.
Tudo começou quando estava fazendo uma sopa cremosa e o meu liquidificador estava quebrado. Só lembrei-me disso quando a sopa estava praticamente pronta, faltando apenas batê-la no liquidificador. Toquei a campainha da vizinha e expliquei a situação. Quando fui devolver o aparelho, ofereci um pouco da sopa num pote. Dias depois ela devolveu-me o mesmo pote e ainda ofereceu-me panquecas num prato de sobremesa.
Agora não quero devolver o prato vazio. Resumindo, estou me sentindo num verdadeiro Kula urbano.
De antropologia gosto muito pouco, mas do Kula eu nunca esqueci. Li o texto nos primeiros semestres da faculdade de Ciências Sociais. O sistema foi descrito primeiramente por Malinowski e depois, em outro contexto, analisado por Marcel Mauss em seu livro Ensaio sobre a dádiva.
As folhas de “xerox” que continham o material foram comidas pelas traças, e, assim, tive que pesquisar no google sobre o tema e eis aqui uma breve síntese[1]:

O kula é um sistema intertribal de trocas praticado na Melanésia e existente ainda hoje, envolvendo transações locais e em todo o arquipélago. Colares e braceletes de conchas, oferecidos com certo intervalo de tempo, percorrem depois um mesmo circuito fechado, mas em sentido inverso. Após certo período, os objetos recebidos são repostos em circulação; seu valor reside na continuidade da transmissão. A posse provisória fornece prestígio e renome. Potlatch, por sua vez, significa dádiva ou dar e é parte do contexto cerimonial das populações ameríndias da costa noroeste da América do Norte.


[...] a regra fundamental da troca possui uma tripla obrigação que consiste em dar, receber e retribuir. Essa norma permite, em todas as sociedades, o estabelecimento e a manutenção de relações sociais. Assim, quando entramos em um sistema de trocas, somos inseridos em um ciclo do qual é difícil sair sem prejuízo social: renunciar à reciprocidade pode levar à ruptura do vínculo.
          
No entanto, bolo de cenoura, panquecas, antropologia, kula e braceletes são apenas desculpas para escrever sobre a reciprocidade nos relacionamentos humanos. Eu tenho por mim que a troca é esperada em TODOS os relacionamentos.
      E não adianta vir com aquela história de que no amor materno isso não existe, que ele é incondicional, que nada espera em troca e blá, blá, blá. Eu não acredito nisso. Não acredito mesmo!
A mãe espera, ao menos, um beijo de seus filhos pequenos, isto para não falar da obediência. Quando eles crescem, a mãe espera um telefonema, uma atenção, um agrado (material ou não). Ela espera o reconhecimento pela dedicação e por todos os sacrifícios feitos. Aninha, consegui visualizar o seu roto se contorcendo ao ler isso.
Mas é isso mesmo. Quando alguém dá – seja lá o que for -, espera receber. Eu, por exemplo, espero que ao ler esta crônica, você post um comentário.
Uma vez eu li algo dizendo que seríamos mais felizes se déssemos sem nada esperar em troca. Contudo, não somos o Dalai Lama e, infelizmente, vivemos numa sociedade onde tudo vira mercadoria, inclusive os sentimentos.
Eis uma situação para ilustrar o que estou falando:
Tenho dois amigos que fazem parte de um mesmo grupo. Após um tempo de convivência eles começaram a sair. Aquele tipo de saída que a gente espera que dê em um relacionamento, pois os dois juntos formam um casal bem bonito.
Entretanto, pouco tempo depois, algo desandou entre eles e como amiga de ambos, ouvi as duas versões.
Ele me disse que estava decepcionado, pois vivia fazendo pequenas surpresas para a minha amiga. Passava no trabalho dela para levar chocolates, ligava, mandava flores, torpedinhos carinhos, entre outras coisas. Mas ela não correspondia a estes agrados. Ele dava com uma mão, mas ficava com a outra aberta esperando receber.
Ela por sua vez, confidenciou-me que achava tudo aquilo muito lindo, mas que não queria se sentir obrigada a fazer o mesmo, pois, afinal, precisavam resolver certas pendências antes dela se entregar totalmente. Ou seja, ela também esperava alguma coisa dele, vale dizer, que ele se desenrolasse antes dela entrar de cabeça no relacionamento. Ao meu ver, isso é uma atitude muito pertinente!
Então é isso? Será que somos um bando de interesseiros?
Duvido. Acredito que estamos mais para investidores inseguros do que para acionistas profissionais.


Apresento-lhes minha teoria:
O mercado dos relacionamentos é muito vasto. Há diversas possibilidades na vida de uma pessoa. Diante deste fato, talvez queiramos receber garantias de que nosso investimento terá retorno garantido, afinal, não precisamos ser economistas, tampouco ter lido Adam Smith, para percebermos a existência da lei da oferta e procura.
No entanto, é possível hipotecar algo tão frágil como o sentimento?
Para quem tem coragem de abrir seu capital a um novo amor, é preciso ter consciência de que a balança comercial dos relacionamentos amorosos é imprevisível. É necessário deixar a racionalidade em segundo plano e pensar menos na relação custo-benefício, pois, vez em quando teremos que pagar ágio.
Da minha parte eu prefiro perder algumas ações e suar de nervosismo diante das flutuações de câmbio de um novo amor do que passar a vida me protegendo do sofrimento.
No mercado do amor, prefiro ser uma investidora corajosa.
     Mas hoje, feriado, minhas ações estão fechadas para balanço e vou me dedicar às atividades bem menos complexas.

        
          Talvez amanhã, com as bênçãos de São Jorge, eu recomece a investir no  difícil mercado do amor.

Obs: 
Dúvidas sobre os conceitos de economia presentes na metáfora, consulte: 
http://www.gazetadeitauna.com.br/economes.htm

Niterói, 23 de abril de 2012.



[1] O valor (moral) da troca por Sophie Chevalier e Anne Monjaret, disponível em: http://www2.u  

terça-feira, 3 de abril de 2012

Saudades de coisas não vividas




     Uma amiga minha me perguntou dia desses o porquê de eu gostar tanto do filme Vicky Cristina Barcelona.


A resposta veio fácil à ponta de língua:
Este filme me faz sentir saudade de coisas não vividas. Sabe aquela sensação de nostalgia por coisas ou situações, mesmo sem nunca ter passado por elas?
Sinto saudade de usar aqueles vestidos bufantes da época do Brasil Império.  Saudade do primeiro Rock in Rio. Saudade do comício das Diretas Já. Saudade do show do Eric Clapton que, por duas vezes deixei de ir por falta de grana. Saudade de uma noite romântica – daquelas de filmes, onde ouvimos música e a perninha levanta quando rola o primeiro beijo. E por falar em romance, sinto saudade de alguém ter feito uma serenata para mim. Saudade de ter dado continuidade ao meu primeiro amor de verão que, como a própria expressão diz, durou apenas alguns dias da estação. Saudade de ter participado dos hi-fis em Araruama que meus irmãos e primos mais velhos contam com tantos detalhes. De vez quando - muito de vez em quando - sinto saudade de ter uma filha chamada Sofia. Saudade de morar numa república na época da faculdade. Saudade de que minha primeira vez tivesse sido com “você”.
Contudo, de todas as saudades de coisas não vividas, a maior delas é de ter passado uma temporada em algum país de Europa. Não estou dizendo 10 ou 2o dias não. Estou falando alguns meses, um ano até. Essa saudade começou quando vi o filme Albergue Espanhol, cresceu com Vicky Cristina Barcelona e hoje é uma saudade muito doída, principalmente ao acompanhar o diário de viagem da minha amiga Shirley.
       Por mais que eu ache que o Rio de Janeiro seja o melhor lugar do mundo para se viver, queria abrir meus horizontes auditivos, degustativos e visuais. 

          Queria visitar uma livraria e passar uma tarde lendo um romance em espanhol, italiano ou em francês nas escadarias de algum monumento de uma praça europeia. Queria caminhar pela Avenue des Champs-Élysées. Queria assistir algumas missas no Vaticano. Tomar vinho num piquenique com novos amigos que faria. Queria fazer novos amigos. Dormir num quarto de um antigo prédio da Bretanha. Queria andar pelas ruas olhando para cima e contemplando a arquitetura até que fique tão acostumada com a nova paisagem que acabe me sentindo em casa. Ter os Jardins do Monet como lugar habitual para reflexão. Queria fazer sexo em outra língua. Navegar no Bateau Mouche no Rio Sena. Fazer doideiras próprias da juventude tendo o céu da Toscana como testemunha.

Fotos: Shirley Torquato

No entanto, não sou mais jovem. E sou funcionária pública. Quer coisa mais segura e, ao mesmo tediosa, do que ter um emprego que não se deve jogar para o alto?
E assim, me restam àquelas lembranças melancólicas e, ao mesmo tempo suaves de todas as coisas não vividas. Imagens que não vi, amores que não vivi, sabores que não provei, pessoas que não conheci, tesão que não senti.
Talvez... Algum dia.          


sábado, 31 de março de 2012

Epitáfio em vida para os meus pais

Em maio de 2008 um tio meu faleceu.
Como em outros sepultamentos – adoro esta palavra! - da minha enorme família, nesse não havia desespero ou lamentações, mas alguns sorrisos, abraços fortes, conversas e orações. Apesar do morto não ser muito chegado às questões da fé, entendo que as orações serviram, principalmente, para o conforto dos que ficaram.
Mas o que realmente me marcou foram as bonitas palavras proferidas pelas filhas do finado, no caso, minhas primas.
Decidi naquele exato momento que diria ao meu complexo pai – vivo - o quanto o admiro e o quanto ele é importante para mim. Acho que ele sempre soube tudo isso, mas queria que ficasse registrado de algum modo e, ao final daquele mesmo dia, escrevi algumas poucas linhas que foram salvas num arquivo de texto. Entretanto, não passou daí. Alguns meses depois, o computador queimou sem eu ter feito backup e o tal arquivo foi sepultado.
Hoje estou em casa pelo terceiro dia consecutivo devido à greve dos rodoviários. Depois de horas a fio de frente ao computador, fiquei com raiva de mim mesma por passar tanto tempo à toa no facebook.
Deu-me uma vontade enorme de escrever, contudo, como já disse na publicação de outro dia, tenho andado sem inspiração.  Trago muitas ideias de temas na cabeça, mas nada realmente que eu estivesse com vontade de desenvolver agora. Desta forma, desliguei o computador e fui para a cozinha testar novas receitas, pois para isso tem andado bastante inspirada.
Sem paciência para internet, sem sinal de televisão há uma semana, sem inspiração, e sem saco de realizar tarefas domésticas ou profissionais, para não me sentir uma inútil completa, dediquei-me a leitura de As Cem Melhores Crônicas Brasileiras. Todavia os dedos continuaram em comichão para digitar algo e a cabeça ficou acelerada com mil ideias soltas.
E eis que a inspiração chega pelas palavras de Arthur Dapieve com sua crônica “O estrangeiro” de 1995, na qual o escritor relata a devastadora sensação de solidão diante do mundo ao viver a morte de sua mãe. Eis um trecho:
É como se, antes do acerto de contas com o Criador, tivéssemos de acertar contas com a nossa Criadora. A morte da mãe deve ser, com a provável exceção da morte de um filho, a coisa mais parecida com a própria morte que um ser humano pode experimentar em vida. É uma ponte que se queima.
E assim, cá estou eu escrevendo um epitáfio em vida para os meus pais.



Pode parecer funesto, mas adianto-me a dizer que sou prática e realista o suficiente para ter a consciência de que meus pais não vão durar muito mais.
É engraçado e estranho perceber o que o tempo e a maturidade nos proporcionam. Quando era criança meu pai vivia dizendo que tinha pavor da morte. Hoje, quando tocamos no assunto, ele assume uma postura de resignação e até uma relativa tranquilidade.
Da minha parte, antes, a simples ideia de viver num mundo onde meus pais não existissem, me causava verdadeiro pânico. Hoje apenas sou grata ao universo por ter me dado a oportunidade de ter a proteção, o carinho e amor de meus pais até me tornar a mulher adulta que sou.
Tenho absoluta certeza que sentirei falta do colinho da minha mãe, ao qual recorro toda vez que me sinto frágil e desemparada.  Tenho certeza também que sentirei falta da sensação de segurança que meu pai me dá. Costumo dizer que meus pais, cada um a sua maneira, me passam a imagem de um porto seguro, um cais, terra firme.
Sei que até posso ir antes deles. Mas peço ao Poder Superior que os livre da dor de perder um filho ou uma filha.  
Mas deixemos de reflexões e vamos ao epitáfio de meus mais como casal:

Meu pai é a terra, minha mãe, o mar.
Ele é a cidade, ela, o campo.  
Ele é o inverno, ela, a primavera.
Ele é a justiça, ela, a absolvição.
Ele é a realidade, ela, o sonho.
Ele é o fato, ela, a esperança.
Ele é a segurança, ela, a aventura.
Ele concentra, ela partilha.
Ele é a oposição, ela, a situação.
Ele é a sanha, ela, a solidariedade.
Ele lamenta, ela, agradece.
Ela é a fé, ele, o ceticismo.
Ela é o futuro, ele, o presente.
Ela planeja, ele concretiza.
Heráclito de Éfeso, o filósofo do fogo, em sua teoria dos contrários, afirma que em todo ser está contido o não-ser, o seu oposto. Assim, tudo no universo está em permanente conflito com o seu contrário. Os seres vivos morreriam porque já trariam em si a morte, oculta. Conhecer qualquer coisa só é possível porque existe o seu contrário. Sabemos o que é alegria porque experimentamos a tristeza e vice-versa. O mesmo, segundo Heráclito, aconteceria com as qualidades de tudo o que existe, sempre aos pares. A guerra e a paz, o quente e o frio, o amor e o ódio.
Meus pais se perguntam como conseguiram ficar casados por tampo tempo.
Creio que o filósofo do fogo respondeu a esta questão há quase três mil anos atrás. Meus pais formam a dupla de pares opostas de Heráclito e só mesmo tendo todos aqueles clichês inerentes a um casal, como o amor, paciência e resignação eles conseguiram formar uma família tão linda e unida como a minha.
Contudo, esta é uma visão muito pessoal da minha família. Se meus irmãos não concordam, cabe a cada um reescrever esta história. Ainda há tempo.