Tente
visualizar a cena:
Você chega, sem avisar, para uma
visita a uma amiga que mora sozinha e uma voz masculina atende o interfone.
Você imediatamente pensa em voz alta “Ih! Liguei errado...”, ao que seu
interlocutor responde imediatamente “Não, não... aqui é a casa de “fulana”
mesmo. É que ela está no banheiro”. Você não sabe o que fazer, mas, por
reflexo, se identifica. Pausa. A voz some e depois volta respondendo “Ela disse
que você pode subir”.
Fulana te recebe à porta da casa e,
ao constatar que você ostenta um sorriso malicioso no rosto, fica sem graça e logo
diz “não é nada disso que você está pensando”, “é só um amigo”, “por pouco,
você não vê o colchão dele arrumado no chão da sala”.
Você, mais sem graça ainda - mas meio sacana também - diz
“sei” e vai entrando na casa e encontra uma mesa de café da manhã lindamente
arrumada ao ar livre. Os dois – “fulana” e amigo - sorriem desarmados pela
falta de argumentos e se entregam à suas brincadeiras maliciosas.
Isso aconteceu comigo na manhã de hoje.
Eu estava na minha casa e o visitante inesperado era, na
verdade, o meu irmão que, aproveitando que estava passando por perto, resolveu dar
um “alô”. Óbvio que ele não acreditou, mas eu juro pela minha mãe mortinha que
o tal amigo que dormiu aqui essa noite é apenas um amigo.
Aliás, a palavra “apenas” está muito mal empregada! O
advérbio estaria corretíssimo se o cara fosse um peguete, um affair, um caso ou o namorado recente. Contudo,
quem me acompanhava no café da manhã de hoje era um amigo muito querido.
Passamos o dia de ontem juntos. Fomos à praia, almoçamos fora
e quando ele veio me deixar em casa, concordamos que ainda estava cedo para o
domingo terminar e resolvemos assistir um filme na TV. Deu fome e como ambos apreciamos
os prazeres do paladar e gostamos de nos aventurar na cozinha, fomos preparar o
que comer e o que beber. Ficou tarde e naturalmente concordamos que era melhor
ele dormir na minha casa. Emprestei-lhe um pijama - o que lhe deixou ridículo -,
roupa de cama e um colchão de solteiro que ele arrumou no chão da sala.
Isso já aconteceu outras mil vezes com esse e outros tantos
amigos e amigas que, vira e mexe, me visitam. O “problema” é que desta vez fui
“flagrada”. Será que o meu irmão teria as mesmas ideias maliciosas se, ao invés
de um amigo, quem estivesse me acompanho fosse uma amiga? Enfim...
Depois que minha visita meteórica foi embora, rimos da
situação e, ao degringolar sobre o tema, ficamos nos questionando se nós, no
lugar do meu irmão, teríamos acreditado na insólita história. Afinal, a mesa de
café da manhã e a paisagem estavam transbordando romantismo. Quem acreditaria?
No entanto, este romantismo estava apenas da cabeça de quem
não nos conhece de fato. O que qualquer pessoa pensaria ser um ato romântico, eu chamaria
de prazer em receber, gentileza, cuidado, amabilidade para com um amigo
querido. Tudo muito natural e tranquilo.
No entanto, é preciso destacar que a interação amistosa entre
homens e mulheres é um fenômeno recente, tornando-se, inclusive, tema de
pesquisas, e, entre elas, tem a que a revista IstoÉ fez circular recentemente. Eis
um trecho da reportagem:
Até o século
XIX, a amizade intersexual era considerada um “mal degenerador”, como conta
Rosana Schwartz, pesquisadora de gênero pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP) e também pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
“Usando argumentos religiosos ou até científicos, os homens acreditavam que as
mulheres eram frágeis e propensas a comportamentos desviantes, por isso a
convivência com um homem que não fosse da família poderia degenerá-las”, diz
Rosana. Ou seja, na época se acreditava que a presença de um homem poderia
levar as pobres mulheres indefesas a cometerem um ato absolutamente condenável:
o sexo fora do casamento. Numa sociedade em que a maioria das mulheres só
convivia com figuras masculinas como o pai, os irmãos ou os padres, a amizade
entre os sexos era muito difícil, senão impossível. Esse cenário só começou a
mudar quando elas chegaram em massa ao mercado de trabalho, no período
pós-Segunda Guerra Mundial. “Mesmo assim, a amizade intersexual como a
conhecemos hoje só se solidificou nos anos 1970, pois até uma década antes os
únicos amigos homens que as mulheres tinham eram os amigos do seu marido”,
afirma Rosana.
Hoje, tanto para os homens, quanto para as mulheres, há infinitas
possibilidades de se conhecer pessoas, mas, por razões que só cada um sabe explicar, somente de algumas nos tornamos amigos(as) de verdade.
Ao escrever a frase acima me veio à lembrança um filme muito
fofo que assisti há muitos anos atrás. Um clássico da sessão da tarde dos
anos 80, Conta Comigo, estrelado pelo
falecido River Phoenix, é ambientando em 1959 e narra a jornada de aventura e
amadurecimento de quatro amigos adolescentes. Por mais que o tempo tenha
passado, guardo como se tivesse visto e ouvido hoje as duas principais mensagens
do filme: 1) o valor da amizade, geralmente, só é encontrado
quando essa deixa de existir; 2) quando se é adulto, é difícil encontrar
amizades sinceras como as que temos quando somos jovens.
Adoro o filme!
Inclusive, o recomendo para quem quiser assistir em família ou entre amigos antigos. Identifico-me
com várias partes dele, mas discordo de suas mensagens finais. Claro que guardo
com muito carinho os meus amigos de infância e da adolescência como a Jaqueline,
a Simone, a Claudia, o Luiz Paulo, o Fábio, o Leo Chermont, a Flavia e tantos
outros. Mas esses estão apenas na memória ou entre os meus contatos do
facebook. No entanto, são com as pessoas que conheci na faculdade, no mundo do
trabalho, ou aquelas que conheci através dos meus amigos, que mantenho ótimas e
duradouras relações de amizade. Ah! Sim! Também tive a sorte de reconhecer
alguns amigos de infância, com os quais tenho tecido novamente antigos laços.
Deste modo,
acredito que quando conseguimos
nos desprender de preconceitos e daqueles velhos jargões que afirmam que só
existe gente falsa e interesseira no mundo adulto e nos permitimos conhecer e
ser conhecido por pessoas legais, podemos sim, fazer bons amigos, sejam estes homens
ou mulheres.
No entanto, também não dá para ser tão inocente a ponto de
achar que nunca há uma “potência sexual” – termo que minha prima Vivi me
ensinou e que imediatamente incorporei ao meu vocabulário – numa amizade intersexual.
Mas o fato de gostar da presença daquele seu amigo, que, por
acaso é de outro sexo, de ter afinidades com ele, de gostar de trocar impressões
sobre a vida, e, às vazes, mesmo discordando, não faltar assunto para conversas,
não quer dizer que desejamos fazer sexo ou que nos vejamos romanticamente unimos a ele ou com todos os amigos ou amigas que tenhamos. Ou, mesmo se houver desejo, não significa
obrigatoriamente que o sexo vá acontecer, afinal, o que não faltam são motivos
para que duas pessoas mantenham sua relação no nível da amizade. Ou ainda que
haja sexo, não quer dizer que deixaram de serem amigos. Enfim, é tudo muito
complexo!
Sobre esta
complexidade toda, uma pesquisadora norte-americana, Heidi Reeder, publicou
recentemente um artigo em que classifica os quatro tipos mais comuns de amizade
entre homens e mulheres.
Observe o quadro
abaixo:
Para tornar ainda
mais complicada esta discussão, tem ainda todos aqueles filmes de comédia
romântica que fazem questão de mostrar a impossibilidade de uma amizade
intersexual desprovida de potência sexual.Você viu algum? Eu vi todos e adoro!
Como a minha vida
não é um filme hollywoodiano e tenho alguns bons amigos homens a quem quero
muito bem, sem, no entanto, deseja-los sexualmente – se algum deles fossem o
Patrick Dempsey, não afirmaria isso com tanta veemência – continuarei lhes
preparando lindas mesas de café da manhã, afinal, somos “apenas” amigos, quer
você acredite ou não.
Niterói, 23 de julho de
2012.