quinta-feira, 21 de março de 2013

Perdas e Ganhos

Ela própria não sabe, mas me considero amiga íntima da Martha Medeiros, escritora gaúcha que parece tomar as minhas angústias, pensamentos e reflexões como material para escrever suas crônicas e publicá-las em livros como Divã, Feliz por nada, Doidas e Santas e tantos outros. Talvez você, mulher que me lê agora, irá pensar que são nas TUAS vivências que a escritora tira o material. Entretanto, não se engane, pois eu tenho certeza que são nas MINHAS experiências e sentimentos que ela se inspira, afinal, como disse antes, sou amiga íntima da celebridade em questão.
A intimidade com a Martha é tanta que já a citei em vários escritos anteriores. Na verdade, a escritora é a minha musa inspiradora, a responsável pela criação deste modesto blog. E mais uma vez, graças a ela, depois de uma longa pausa que durou um verão completo, cá estou eu escrevendo para quem quiser ler.
     E por falar em verão, pode parecer bobagem, mas a troca de estação, e, no meu caso, a entrada do outono, me faz ter vontade de trocar as folhas, me desapegar de alguns elementos da minha natureza, mudar a paisagem da minha vida e é neste ponto que entramos no assunto desta crônica: perdas e ganhos. Os mais velhos, ops, os mais antigos, talvez se lembrem do filme Perdas e Danos estrelado por Jeremy Irons e Juliette Binoche em 1992. O título é parecido – quase um plágio - mas esta crônica pouco tem a ver com ele.
Adentremos, enfim, no assunto...
Depois de um verão chuvoso, quente e preguiçoso sob alguns aspectos, tenho tentado, com todas as minhas forças, abandonar alguns maus hábitos ganhos, adquirir alguns novos e retomar outros bons que tinham sido perdidos. Um destes é o hábito da leitura.
Como estou destreinada, achei por bem retomá-lo a partir da leitura de algo leve e atrativo e aí dei de cara com o novo livro “dela” – não vou repetir o nome mais uma vez para não parecer puxa-saquismo – Um lugar na janela, relatos de viagem.
Como podemos intuir pelo próprio título, Martha nos descreve suas experiências expedicionárias por este mundão afora e, de novo, brotou em mim aquela saudade de coisas não vividas, mas isso já está registrado em outra crônica.
Contudo, um relato, em especial, me fez pensar na questão de desapego. A cronista conta que passou uma breve temporada morando em Santiago do Chile e, ao fim de oito meses de estadia, ela e o marido, ao se prepararem para voltar ao Brasil, venderam tudo o que tinham de material dentro do apartamento a ponto de, na última noite no Chile só terem um colchão no chão.
Ela partilha um aprendizado que, a meu ver, é muito valioso em tempos de proliferação de casos de acumuladores patológicos. Martha diz que foram embora carregando apenas o que haviam vivido e todas as emoções. Não pagaram excesso de bagagem no voo de volta e, ao chegaram ao Brasil, tiveram uma gostosa sensação de leveza. Deixou de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para usar, e não para se amar e concluiu dizendo que descobriu a “irrelevância de quase tudo que é material”.
Sou eu!!!!!!! Mais do que nunca tenho certeza que ela me usa como cobaia para escrever!
Veja bem, apesar de nunca ter saído do Brasil, já me mudei várias vezes. Só para constar, desde que saí da casa dos meus em 2005, já troquei de habitat cinco vezes e, geralmente, para espaços cada vez menores. A cada mudança fui me desfazendo, com muita facilidade, de móveis, roupas, papéis, utensílios de cozinha, eletrodomésticos e objetos de decoração. Diferente da Martha, eu fui dando estas coisas, e não vendendo.
Tenho o seguinte critério: se não uso a coisa durante seis meses, passo a acreditar que nunca mais vou precisar dela e assim, quase toda semana, a moça que faz faxina na minha casa leva algo que eu julgo que será mais útil para outra pessoa: um pote, uma panela, um produto cosmético, um sapato, um jogo de lençol. Eu perco, mas alguém ganha.
E por falar em faxina, adoro arrumar armários e gavetas, pois é uma oportunidade de me livrar de coisas que não têm mais lugar na minha vida e assim fui ganhando mais espaço físico e simbólico.
Falando em me livrar de coisas desnecessárias, recentemente livrei-me de muitos quilos. Para ser exata, eliminei quarenta e três quilos e duzentos gramas (isso mesmo, 43k!) nos últimos oito meses. Por conta disso, fui doando - com muito prazer, obrigada! - todas as minhas roupas do antigo manequim, mesmo aquelas roupas novas que eu havia comprado pouco tempo antes da cirurgia. Com a redução do tamanho, perdi também aquela preguiça crônica de fazer atividades físicas e ganhei agilidade e outras pequenas e grandes coisas que facilitam a minha vida cotidiana.
Em outras ocasiões, apesar de adorar minha pequeníssima biblioteca, perdi livros, alguns até de valor afetivo, ao presentear meus amigos acreditando que tal volume teria mais utilidade para aquela pessoa naquele momento do que para mim.
Ou seja, se existem os acumuladores compulsivos - pessoas que entopem suas casas com objetos de que não precisam, como jornais velhos e lixo, podendo, inclusive, comprometer a saúde – tornando-se participantes de um reality show de um canal de TV a cabo – eu sou uma “livradora” compulsiva de coisas materiais.
No entanto, quando o assunto são os meus sentimentos, fica difícil faxinar as gavetas da minha mente. É difícil - e até doloroso - perder antigas crenças, mesmo aquelas que já não me servem mais ou que me fazem sofrer. Pode parecer doideira, mas estas falsas crenças me servem de âncora neste mundo solitário.
O mesmo acontece em se tratando de pessoas. Percebo que fica cada vez mais difícil me afastar daquelas que são ou foram importantes para mim, independentemente do quanto me fizeram feliz ou triste e do tempo que estiveram presentes em minha vida.
Algumas dessas são importantes e necessárias e gostaria muito que ficassem, no entanto, têm aquelas outras que eu deveria desprendê-las do meu coração, nem que seja para abrir espaço para outras, mas, vá lá entender o porquê, continuo querendo-as por perto.
Talvez eu só precise de uma ajudazinha para fazer esta faxina afetiva. Que tal uma simpatia?
Afastar pessoas indesejáveis
 Pegue um papel branco e escreva o nome dessa pessoa,
dobre o papel ao meio com o lado escrito para fora,
coloque o papel dentro de um copo com metade de vinagre vermelho,
metade água e uma pitada de sal grosso.
Coloque dentro do congelador durante 21 dias.
 Após os 21 dias jogar fora muito longe da sua casa.

domingo, 4 de novembro de 2012

Se nada der certo, viro hippie

  Certa vez, uma empresa fabricante de uma marca nacional de guaraná pegou carona na onda das comemorações de final de ano e usou uma ótima estratégia de marketing ao confeccionar umas camisetas estilizadas com frases que, no meu julgamento, eram bem legais. Uma delas, em especial, me chamou a atenção. Dizia: Se nada der certo, viro hippie.
Provavelmente a frase já existia e eu, sem dúvida, já a tinha ouvido, mas foi só a partir desta época que ela ficou guardada em mim.
E assim, toda vez que estou cansada da vida urbana, estressada com minha louca rotina de trabalho, correria, filas de banco, engarrafamento, salto alto, poluição, calor, falta de gentileza nas ruas (minha e das outras pessoas), competitividade e mau gosto, a frase me vem à cabeça.
Ela também fica martelando na minha cachola toda vez que volto de lugares como Lumiar, Aldeia Velha, Sana ou outro mato qualquer, pois me questiono se a vida que levo é, de fato, aquela que queria viver.
Penso às vezes que ser hippie, não deveria ser um “plano B”, mas sim, fazer a vida “dar certo” de fato.
Sabemos muito bem a concepção corrente de nossa sociedade sobre o que é “dar certo”, e, portanto, não precisamos perder nosso tempo elencando as características de uma pessoa “bem sucedida”.
Contudo, se o Wikipédia me contratasse para criar definições para essas expressões, eu diria que “dar certo” e “indivíduo bem sucedido” é aquela pessoa que consegue desfrutar de uma vida sossegada, com períodos diários de silêncio e ócio criativo. Seria estar em comunhão com a natureza. Deitar na grama em um local público sem sentir vergonha pelo o que os outros irão pensar. É preferir fazer amor a fazer guerra. É alimentar relacionamentos amorosos onde cada pessoa envolvida mantenha sua individualidade, sem que cada um tenha posse sobre o outro.
Uma pessoa “deu certo” quando prefere trocar aquela tal praia badalada por um banho de rio e cachoeira no meio do nada. É ter em mente que encarar uma trilha é um programa perfeito para um dia de férias. É achar que o seu tênis fica mais bonito quando está sujo e esfarrapado de tanto metê-lo na lama. É estar antenada na troca de fases da lua e fazer pedidos inocentes às estrelas cadentes. É ter ternura o suficiente a ponto de emocionar-se com o por do sol. É tentar não colocar os seus próprios interesses acima dos interesses coletivos.
Não que eu seja a pessoa descrita acima, mas tenho que assumir que tenho muitas características de um “riponga”: gosto de produtos artesanais, odeio calcinhas e sutiãs – aliás, se não fosse contra a leia, iria aderir ao naturismo, mas já que preciso me vestir para sair às ruas,  adoro jeans desbotado e rasgado, sandálias havaianas, cabelo meio despenteado, e, se fosse pelo meu gosto, não usaria brincos. Preferia quando as tatuagens e perfurações eram “coisas de marginais”.
Apesar de não ter aderido a algum movimento de contracultura, abomino produções culturais criadas para o consumo de massa; gostaria de viver entre pessoas que mantem laços comunitários; ideologicamente poderia me definir como uma socialista-libertária; e não consigo ficar parada muito tempo num mesmo lugar, pois sou meio nômade.
No entanto, se levássemos em conta a média dos profissionais da minha área de atuação, acredito que posso afirmar que sou uma professora “bem sucedida”. Além disso, tenho que confessar que aprecio muito as benesses da vida burguesa: ambiciono o conforto que um carro particular oferece; gosto de pegar uma sauna seguida de uma piscina; adoro banheiras de hidromassagem e um bom perfume importado. Gosto de barzinhos moderninhos e descolados e tenho um lado consumista bem apurado. Ultimamente, venho ficando cada vez mais vaidosa e, por isso, tenho investido pesado no uso de produtos cosméticos. E, acima de tudo, quero um “homem para chamar de meu”.
Desta maneira, me transformar numa autêntica hippie iria requer de mim uma boa dose de coragem para abrir mão das coisas boas da vida urbana. Queria poder ser hippie com internet e todas as comodidades que a modernidade nos traz. Talvez por isso me transformar em bicho grilo também não dê certo, pois nada vai parecer dar certo enquanto eu, você, nós estivermos querendo tudo, como se isso fosse possível. 

Contribuição de Larissa Quillinan

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O funil

      Afetivamente, fiquei anos e mais anos estacionada na desconfortável zona de conforto: Um relacionamento longo e afável, porém muito morno; a inevitável dor da separação; o luto; um longo período de putaria; uma fase de romances rápidos e complicados e agora, depois de um período de pupa (repouso), a borboleta saiu do casulo e quer voar alto, muito alto. 
         Para facilitar o meu plano de voo, divulgo o seguinte anúncio:

Então é isso... Não quero nada menos do que a doçura, a devoção e a proteção do vampiro Edward e o arrebatamento apaixonado, dominador e cheio de tesão do Christian de Cinquenta Tons de CinzaAfinal, estou fazendo um investimento emocional e físico altíssimo para me contentar com pouco.
Tá bom, tá bom! Já sou burra velha para ficar fantasiando e acreditando em heróis românticos de livros... Portanto, se a razão me diz que não pode ser daquela maneira, fiz uma pequena lista de critérios modestos que o candidato a morador do meu coração (ai, que brega!) deverá preencher:

Ter idade real (e também cognitiva) de, no mínimo 30 e, no máximo, 45 anos.

Ele já deve ter se encontrado e se estabelecido profissionalmente, devendo, gostar do que faz, sem, contudo, ser viciado em trabalho.

Já ter filhos, o que evitaria dele inventar de querer tê-los comigo.

Já ter saído do ninho dos pais e que seja capaz de bancar seu próximo sustento. Aliás, não aguento mais homem duro. Sendo assim, o candidato deverá estar na mesma faixa renda do que eu, mas, melhor seria se estivesse acima. Cabe ressaltar que o fulano não precisará me amparar financeiramente, contudo, de vez em quando, pagar a conta do restaurante, do motel, do cineminha, das nossas viagens e do barzinho, faz dele um cavalheiro.

Cavalheirismo é um critério importante. Assim como gentileza, cuidado, carinho, sensibilidade, bom humor e devoção como a do Edward Cullen. No entanto, uma alta dose de sacanagem e depravação são critérios inegociáveis. Ai, ai... Christian Grey!

Ah! Sim! O cara tem que gostar de mulher, no caso, eu, é claro!

O cara tem que ter charme e estilo, não precisando ser, necessariamente, bonito. Melhor dizendo, não quero que seja bonitão, não. Gosto de descrição. O que me leva a outro critério:

O homem não pode ser do tipo “o cara”, ou seja, aquele que “chega chegando”, que chama atenção ou que faz de tudo para isso. Prefiro os mais tímidos e sensíveis. Mas...

O cara tem que ter atitude. Odeio homem passivo, que deixa tudo para eu decidir e resolver. Como sou muito impositiva, se o cara for molenga eu “trepo” (no mau sentido) e acabo deixando vir a tona o que há de pior em mim.

Como não terei carro nem tão cedo, o candidato deverá tê-lo, mas não ligo para marcas, modelo e ano.

O meu par tem que gostar de beber, mas a bebida não pode ocupar um lugar de destaque em nossos programas.  Falando nisso, temos que ter sintonia na escolha desses. Mas isso é fácil, pois, exceto pagode, escola de samba, forró, axé, sertanejo, underground, filmes de ação, terror, suspense, comédia pastelão e afins e lugares muvucados de gente sem noção, sou aberta a novas possibilidades.

Deve ser animado para sair de casa a dois ou em grupo, mas não pode ficar irritado por ficar em casa numa sexta-feira à noite vendo um filminho. Ou seja, deverá manter um equilíbrio entre caseiro e festeiro.

Tem que ser bom na cama. Já falei isso, né? Hummm... A repetição é proporcional ao grau de importância.

Acho que é só. 
Meu sobrinho, ao ouvir esta lista, disse que se eu colocasse os homens desta cidade, deste estado, deste país, deste planeta num funil e o espremesse e sacudisse, não cairia um. 
Mas eu sou uma romântica. Prefiro acreditar que ele está por aí, como um "Wally". Um dia a gente se esbarra<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]-->.


<!--[if !vml]--><!--[endif]-->
<!--[if !supportFootnotes]-->

<!--[endif]-->
<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> Inspirado no filme argentino Medianeras que assisti hoje.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Tédio com um T bem grande prá você


            Faz tempo que não escrevo.
Aliás, faz tempo que não faço coisas que me motivem e me inspirem a escrever.
É isso mesmo, prezado leitor, esta crônica estará carregada de tédio e melancolia. Se você está baixo astral, fuja!
           
Quem acompanha este blog deve lembrar que a autora dele - ou seja, esta que lhe escreve - foi submetida à cirurgia de gastroplastia, vulgo “redução de estômago” recentemente. Para ser mais exata, decorreram 37 dias desde a intervenção cirúrgica.
Posso dizer - e meus médicos atestam - que minha recuperação é um sucesso, pois quase não senti os efeitos orgânicos negativos da cirurgia e já eliminei mais de 16 quilos.
No entanto, uma reação não prevista aconteceu: Estou desanimada. Muito desanimada! Mais do que isso, tenho andado extremamente sensível, carente, entediada, irritada, prostrada, intolerante e baixo astral.
Tenho meus dias bons, mas, na maior parte do tempo, é dessa maneira que me sinto. 
       Não consigo ler nada de bom. Alugo filmes que não me seduzem a assisti-los, tenho preguiça de sair de casa, não quero voltar ao trabalho. Enfim, do dia 31 de julho para cá, esta foi a minha realidade:
- 0% de álcool;
- 0% de alimentos engordativos;
- 0% de sexo;
- 0% de coisas interessantes acontecendo;

Noutro dia, reclamando disso com um amigo, ele me respondeu: "Tá vendo só? Vida de magra é muito sem graça!". Quando o corrigi dizendo que ainda não estava magra, ele me advertiu: “Ou seja, vai piorar".
Confesso que me apavorei!

Como nenhum infortúnio vem sozinho, o meu tédio coincidiu com o da minha sobrinha, uma adolescente, projeto de gente esquisita, com a qual convivo diariamente.
Nas últimas semanas, ela tem acordado com aquela “cara de bunda” típica de alguém que está insatisfeita com a vida.
No intuito de querer dar cabo de nossa incômoda situação, me pus a pesquisar sobre o tema e eis que chego a uma interessante reportagem sobre o tédio entre adolescentes veiculado num programa dominical de TV. Eis um trecho:

Por que os adolescentes ficam entediados? 
Por Suzana Herculano-Houzel[1]

       Acontece com todo mundo. Chega um momento da vida em que tudo que a gente gostava de fazer - brincar de bola, de boneca, de carrinho, de pega-pega - deixa de ser interessante. 
É o tédio, um dos primeiros sinais do início da adolescência. Você provavelmente ouviu falar que o tédio, como várias outras chatices da adolescência, era culpa dos hormônios. Mas não é. 
A neurociência hoje tem uma resposta diferente: o comportamento adolescente é fruto de um cérebro adolescente, que está passando por uma série de transformações.
Uma das primeiras mudanças acontece bem no meio do cérebro, no sistema de recompensa. Esse é um conjunto de estruturas que, quando fazemos algo que dá certo ou que promete resultados muito legais, nos premia com uma sensação de prazer. Um prazer que tanto serve como recompensa quanto como motivação. 
Brincar de bola, de boneca, correr à toa, jogar videogames, são ótimas maneiras de ativar o sistema de recompensa das crianças. Acontece que, ao entrar na adolescência, o sistema de recompensa perde de um terço à metade de seu tamanho e também da sua sensibilidade. 
Isso significa que tudo o que antes dava prazer agora já não funciona mais tão bem. A boneca, a bola e os carrinhos são abandonados. Os heróis da infância são esquecidos. 
O que ainda funciona? Novidades. Por isso, os adolescentes precisam tão desesperadamente de novos prazeres: música, esportes, carinhos, comida, cinema - tudo isso na companhia de amigos, que têm as mesmas necessidades. 
Por mais que o tédio seja chato para os recém-adolescentes - e para seus pais que acham que a falta de interesse e preguiça são birra ou rebeldia - esse tédio é natural e tem uma função importantíssima. É ele que faz com que o jovem abandone a infância, se interesse pelo mundo adulto e vá buscar sua turma. 
Afinal, se a infância não perdesse a graça, quem iria querer trocar a brincadeira por trabalho?

Ok. Pelo que o que diz a reportagem, a situação de minha sobrinha é normal e, se tudo correr bem, passageira. Ótimo para ela! Daqui a pouco ela deixará, de vez, a infância para trás e adentrará no mundo adulto. Mesmo que se sinta desconfortável, triste e irritada vez ou outra, ela terá diversos outros interesses que lhe darão prazer e terá tantas outras recompensas como motivação.  

Mas e eu?
Tudo bem que eu tenha uma alma adolescente e, em termos de maturidade, tenho que admitir que sai dessa fase faz bem pouco tempo. Entretanto, eu sou uma mulher adulta de quase quarenta anos! Que tédio é este que me persegue há quarenta dias?
  Analisando mais atentamente a reportagem, percebo que ela não versa apenas sobre adolescentes. Contudo, ela dá algumas pistas para entender a minha atual situação.

      Devido à cirurgia, hoje sou como uma adolescente vivendo um período de transição. Afinal, o meu corpo e o meu cérebro estão passando por profundas transformações.
Por questões orgânicas, mas também por disciplina e um forte desejo de mudanças da minha parte, já não posso contar com alguns instrumentos de compensação como, por exemplo, a comida, que me dava prazer ao me entorpecer.
Também já não posso contar com aquele vinhozinho que me relaxava e me fazia companhia naquelas solitárias noites de sexta-feira sem programa.
Fora que, a despeito de minha inabalável libido, não tenho me contentado com aquele bom e velho sexo casual com os pratinhos[2] de sempre.

        O sistema de compensações de antes já não funcionam agora. E, apesar das perspectivas para o futuro serem promissoras - parafraseando Cazuza - o meu futuro é duvidoso. Afinal, não sou mais aquela Bia gordinha, engraçada, disponível, de baixa autoestima de antes, mas ainda não sou a Bia magra, saudável e bem resolvida que serei.
Você já deve ter pensado na solução para este impasse. Basta que eu crie novos sistemas de compensação e prazer.
Claro! É isso mesmo! Fácil, não é mesmo?
Não, não é...

         Abandonar, abrir mão, deixar para trás seja lá o que for não é uma coisa fácil, ainda mais em se tratando de antigos hábitos que davam prazer.
Mas é isso... Não tem jeito... Já dizia aquele o ditado típico de gordo: “Não é possível fazer uma deliciosa omelete (isso eu posso comer!) sem quebrar alguns ovos”.
Mudanças no meu comportamento são necessárias... Ops, isso me lembrou uma música e é com ela, sem mais delongas, que fecho este texto:

Solidão me deixe forte
Talvez resolva meus problemas



[1] http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/1,,MUL872875-15607,00.html
[2] Sobre o tema, leia a crônica intitulada “A Teoria dos Pratinhos” em: http://www.biamaianeves.blogspot.com.br/2012/01/teoria-dos-pratinhos.html

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Manifesto dos esquisitos*

Somos os esquisitos!
Aqueles que são taxados de ovelhas desgarradas da família. O colega de trabalho que poucos compreendem. O amigo com gostos e opiniões peculiares.
Geralmente somos queridos e admirados pelas crianças e adolescentes, porque não agimos como os outros adultos que os rodeiam ou porque, geralmente, a esquisitice manifesta-se justamente naquela idade. No entanto, é na fase adulta que ela se instala e a assumimos com altivez. 
Abominados alguns preconceitos, mas fazemos questão de sermos politicamente incorretos.
         Somos esquisitos porque não buscamos aprovação alheia para por em prática nossos hábitos e ideias esquisitas.
Quando achamos necessário, apontamos o que há de ridículo e exagerado ao nosso entorno, sem medo de cultivar antipatias, mesmo e, principalmente, em meio aos nossos familiares.
Embora cuidemos do nosso corpo e aparência, o fazemos única e exclusivamente para o nosso próprio bem estar. Danem-se as cores, cortes de cabelos, tamanhos de bunda e formatos de sobrancelha da moda. Aliás, a beleza é algo relativo para os esquisitos.
Apesar de termos algumas poucas peças de grife em nossos guarda-roupas, nosso consumismo é voltado para livros, shows, viagens e lugares fora do grande circuito.
Preservamos nossa individualidade a despeito das expectativas implícitas ou explícitas das pessoas com as quais convivemos.
Geralmente não assistimos novelas e programas televisivos voltados para o grande público. Desconhecemos bordões da moda e frases de efeito. Não temos a menor ideia de quem seja a Luzia que foi para o Canadá.
Praguejamos contra os ídolos de massas, tais como Luciano Huck, Ivete Sangalo, Angélica, Pedro Bial, Ratinho e afins. 
Apreciamos nossa própria companhia e somos bastante seletivos para eleger quem merece desfrutar dela. Vez ou outra, temos que conter nossa intolerância. Contudo, temos amigos normais de quem gostamos muito, mas é entre nossos pares que nos sentimos realmente confortáveis.
Não nos incomodamos com o silêncio - mesmo quando há companhia. Pelo contrário, o silêncio nos nutre, pois temos tendência à introspecção. Desta forma, periodicamente entramos em nossas respectivas cavernas interiores e lá hibernamos como ursos. No entanto, não adormecemos. Pelo contrário, abrimos nossos sentidos para mergulharmos profundamente em nossas questões existenciais. Afinal, os esquisitos pensam em demasia.
Enquanto esquisitos, não exigimos nada. Só viemos orgulhosamente proclamar nossa existência.
Não nos ofendemos com este adjetivo, pelo contrário, gabamo-nos deste título. Afinal, a transgressão, a insolência, a insurreição e uma dose de arrogância são alimentos vitais para nossa existência.
Se você é um de nós, assine abaixo. 

*Lilian Rabelo é co-autora deste texto.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Brincadeira séria sobre a morte

            Falem o quiser, mas eu sou fã do facebook! Para ser mais exata, sou viciada!
            Além de ter várias funções, para mim, ele é inspirador.
Sei que alguns amigos acham que me exponho muito e tudo o mais, mas foi num desses excessos cometidos que tirei o material para esta crônica.
Há cerca de uma hora atrás postei a seguinte frase no mural da rede social:

Se eu não acordar depois da cirurgia, quero que todos saibam que fui feliz!
           
Alguns poucos entenderam que eu estava brincando e mais outros perceberam que, na verdade, eu estava querendo chamar a atenção.
Para os que acreditaram digo: Gente! É óbvio que não quero e, se Deus concordar com a minha vontade, não vou morrer. Aliás, vou me submeter ao tratamento cirúrgico de “Gastroplastia com anel e bypass por videolaparoscopia”, vulgo “redução de estômago”, justamente para viver mais e melhor.
Entretanto, como em todas as cirurgias, na minha também há riscos. Qual o susto?
Para ser ainda mais realista, posso morrer até mesmo antes da cirurgia. Na madrugada de hoje, enquanto eu estiver dormindo, a morte pode me levar com um aneurisma cerebral. Caso eu acorde, posso morrer a caminho do hospital, num acidente de carro. Imagine se um avião cair no meio da pista do aterro do Flamengo enquanto eu estiver passando em frente ao Aeroporto Santos Dumont, no caminho de volta de Copacabana à Niterói.
Uma morte mais divertida e glamourosa – e mais a minha cara – teria o seguinte enredo: Eu emagrecerei, isto é certo! Mas ficarei tão linda, tão linda que logo, logo arrumarei um namorado endinheirado. Ele cobrir-me-á de presentes e um desses será um colar caríssimo. Visitaremos o motel mais chique de Niterói e tomaremos um delicioso banho na hidromassagem. Mas, por algum defeito nas engrenagens (as coisas caras também por dar defeito) o tal colar vai enroscar na saída de água e eu posso morrer estrangulada. Este exemplo foi baseado em uma história real que uma amiga viveu, mas graças a Deus e ao colar vagabundo que arrebentou, ela ainda está aí... Vivinha da Silva!
Já até imaginei a cara de terror de alguns leitores ao ler este monte de bobagens. Com o intuito de apavorá-los ainda mais, dei-me o trabalho de pesquisar sobre mortes absurdas e achei algumas, mas estou com preguiça de transcrevê-las e encaixá-las neste texto. Quem quiser conferir, eis o link:
http://pudim.info/wiki/Mortes_estranhas
Mau agouro falar em morte às vésperas de uma cirurgia? Que nada! Eu sei que é clichê, mas quero lembra-los que a única certeza que temos nesta vida é justamente a da nossa morte! Sendo assim, por que não brincar, falar ou escrever sobre ela?
Sem querer ser desrespeitosa com ninguém, gostaria de advertir que a morte vive entre nós. Ela, por mais paradoxal que isso possa parecer, faz parte de nossas vidas.
Zilda Arns, médica sanitarista, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança que lutava pela erradicação da mortalidade infantil, morreu, aos 73 anos, naquele terrível terremoto que atingiu 7 graus na escala Richter no Haiti, em 2010. Ela estava no país cumprindo agenda de palestras em defesa da vida.
Na sétima volta do Grande Prêmio de San Marino, no autódromo de Ímola, na Itália, Ayrton Senna passa direto pela curva Tamburello a 300 quilômetros por hora e espatifa-se no muro de concreto.
Dias desses foi inaugurada a Praça Memorial 17 de julho como forma de homenagear as 199 vítimas do acidente com o voo TAM JJ3054, que explodiu no aeroporto de Congonhas, em São Paulo,  há cinco anos.
Não tão raro trabalhadores morrem por exaustão em canaviais pelo Brasil afora ou em outras situações desumanas em todo o mundo.
Para citar outros exemplos mais próximos, minha tia Vitória era a segunda mais nova dos treze irmãos do meu pai e faleceu em dezembro passado. Da minha família por parte de mãe, só ela e meu avô chegaram aos setenta anos até agora, o que faz com que minha velhinha celebre a vida a cada dia. Meu tio Hélio morreu aos 36 anos com uma parada cardíaca fulminante deixando uma jovem esposa e seus quatro filhos. Meu primo Duda morreu aos 27 em decorrência de um melanoma – um tipo de câncer de pele -, seis meses após a celebração do seu casamento.
Diante disso tudo, às vésperas de uma situação que vai mudar a minha vida, não consigo parar de pensar sobre a possiblidade da minha morte.  
Dizem que diante da eminência dela, as pessoas costumam assistir a um filme de sua vida. Não cheguei a tal ponto – talvez isso seja um bom sinal - mas consegui fazer um brevíssimo balanço e tenho total segurança para repetir aqui o que escrevi mais cedo no facebook: FUI FELIZ!
Não realizei grandes projetos, não fiz nada de extraordinário. Para falar a verdade sou umas das pessoas mais comuns que conheço. No entanto, sinto-me agraciada por Deus. Como não me sentir assim?
Tenho uma família maravilhosa, fui amada e amei algumas vezes. Não tive filhos, mas escrevi duas monografias e essas vinte e poucas crônicas publicadas no Mulher Solteira Não Procura. Cultivo algumas plantinhas, e plantei tantas outras mini árvores em vários lugares por onde passei. Tenho alguns bons e verdadeiros amigos. Cumpri uma pequena função social ao despertar o senso crítico em alguns alunos que passaram pelas salas onde dei aulas de Sociologia e Filosofia, contudo, fui uma péssima referência (dependendo do ponto de vista) para meus sobrinhos e sobrinhas.
Portanto, queridos e queridas, se a “temida” vier me buscar, não chorem por mim. Antes, façam um show de rock no meu funeral daqui a uns... 40 anos, quem sabe? Porém, por via das dúvidas, adianto-me a oficializar e tornar público o meu testamento[1]::

Para toda a minha numerosa família e para os meus amigos, deixo a felicidade de tê-los ao meu lado e para “você”, em especial, deixo-lhe o meu sorriso que você tanto gosta:




Niterói, 30 de julho de 2012.


[1] De material, deixo:
- Algumas dívidas com instituições financeiras capitalistas que exijo que não sejam pagas; 
- Alguns livros de Sociologia para minhas queridas colaboradoras Beatriz, Dayana e Larissa e outros de Filosofia para o Leo;
- Os romances deverão ser distribuídos entre outros amigos e familiares que chegarem primeiro, assim como  alguns móveis e eletrodomésticos;
- Carlinhos e Rodolfo, fiquem com as poucas garrafas de vinho que me sobraram;
- Thaís e Marcelle, resolvam-se quanto a cama de casal e os meus quadros;
- Daniel, meu afilhado, fique com a pequeníssima quantia em dinheiro que está aplicada;
- Para Izabela e Camila deixo minha pequena fonte;
- Para Juliana, deixo meu gatinho de pano;
- Quanto às poucas roupas que prestam, deixo-as para as gordinhas que ainda não tiveram coragem de tomar uma atitude. 
- Flavio, não se esqueça de que você tem direito a pensão. Providencie e divida entre você e quem mais precisar.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Quem acreditaria nisso?

                  Tente visualizar a cena:
            Você chega, sem avisar, para uma visita a uma amiga que mora sozinha e uma voz masculina atende o interfone. Você imediatamente pensa em voz alta “Ih! Liguei errado...”, ao que seu interlocutor responde imediatamente “Não, não... aqui é a casa de “fulana” mesmo. É que ela está no banheiro”. Você não sabe o que fazer, mas, por reflexo, se identifica. Pausa. A voz some e depois volta respondendo “Ela disse que você pode subir”.
            Fulana te recebe à porta da casa e, ao constatar que você ostenta um sorriso malicioso no rosto, fica sem graça e logo diz “não é nada disso que você está pensando”, “é só um amigo”, “por pouco, você não vê o colchão dele arrumado no chão da sala”.
Você, mais sem graça ainda - mas meio sacana também - diz “sei” e vai entrando na casa e encontra uma mesa de café da manhã lindamente arrumada ao ar livre. Os dois – “fulana” e amigo - sorriem desarmados pela falta de argumentos e se entregam à suas brincadeiras maliciosas.

Isso aconteceu comigo na manhã de hoje. 
Eu estava na minha casa e o visitante inesperado era, na verdade, o meu irmão que, aproveitando que estava passando por perto, resolveu dar um “alô”. Óbvio que ele não acreditou, mas eu juro pela minha mãe mortinha que o tal amigo que dormiu aqui essa noite é apenas um amigo.
Aliás, a palavra “apenas” está muito mal empregada! O advérbio estaria corretíssimo se o cara fosse um peguete, um affair, um caso ou o namorado recente. Contudo, quem me acompanhava no café da manhã de hoje era um amigo muito querido.
Passamos o dia de ontem juntos. Fomos à praia, almoçamos fora e quando ele veio me deixar em casa, concordamos que ainda estava cedo para o domingo terminar e resolvemos assistir um filme na TV. Deu fome e como ambos apreciamos os prazeres do paladar e gostamos de nos aventurar na cozinha, fomos preparar o que comer e o que beber. Ficou tarde e naturalmente concordamos que era melhor ele dormir na minha casa. Emprestei-lhe um pijama - o que lhe deixou ridículo -, roupa de cama e um colchão de solteiro que ele arrumou no chão da sala.
Isso já aconteceu outras mil vezes com esse e outros tantos amigos e amigas que, vira e mexe, me visitam. O “problema” é que desta vez fui “flagrada”. Será que o meu irmão teria as mesmas ideias maliciosas se, ao invés de um amigo, quem estivesse me acompanho fosse uma amiga? Enfim...
Depois que minha visita meteórica foi embora, rimos da situação e, ao degringolar sobre o tema, ficamos nos questionando se nós, no lugar do meu irmão, teríamos acreditado na insólita história. Afinal, a mesa de café da manhã e a paisagem estavam transbordando romantismo. Quem acreditaria?
No entanto, este romantismo estava apenas da cabeça de quem não nos conhece de fato. O que qualquer pessoa pensaria ser um ato romântico, eu chamaria de prazer em receber, gentileza, cuidado, amabilidade para com um amigo querido.  Tudo muito natural e tranquilo.
No entanto, é preciso destacar que a interação amistosa entre homens e mulheres é um fenômeno recente, tornando-se, inclusive, tema de pesquisas, e, entre elas, tem a que a revista IstoÉ fez circular recentemente. Eis um trecho da reportagem[1]:

Até o século XIX, a amizade intersexual era considerada um “mal degenerador”, como conta Rosana Schwartz, pesquisadora de gênero pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e também pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Usando argumentos religiosos ou até científicos, os homens acreditavam que as mulheres eram frágeis e propensas a comportamentos desviantes, por isso a convivência com um homem que não fosse da família poderia degenerá-las”, diz Rosana. Ou seja, na época se acreditava que a presença de um homem poderia levar as pobres mulheres indefesas a cometerem um ato absolutamente condenável: o sexo fora do casamento. Numa sociedade em que a maioria das mulheres só convivia com figuras masculinas como o pai, os irmãos ou os padres, a amizade entre os sexos era muito difícil, senão impossível. Esse cenário só começou a mudar quando elas chegaram em massa ao mercado de trabalho, no período pós-Segunda Guerra Mundial. “Mesmo assim, a amizade intersexual como a conhecemos hoje só se solidificou nos anos 1970, pois até uma década antes os únicos amigos homens que as mulheres tinham eram os amigos do seu marido”, afirma Rosana.


Hoje, tanto para os homens, quanto para as mulheres, há infinitas possibilidades de se conhecer pessoas, mas, por razões que só cada um sabe explicar, somente de algumas nos tornamos amigos(as) de verdade.
Ao escrever a frase acima me veio à lembrança um filme muito fofo que assisti há muitos anos atrás. Um clássico da sessão da tarde dos anos 80, Conta Comigo, estrelado pelo falecido River Phoenix, é ambientando em 1959 e narra a jornada de aventura e amadurecimento de quatro amigos adolescentes. Por mais que o tempo tenha passado, guardo como se tivesse visto e ouvido hoje as duas principais mensagens do filme: 1) o valor da amizade, geralmente, só é encontrado quando essa deixa de existir; 2) quando se é adulto, é difícil encontrar amizades sinceras como as que temos quando somos jovens.
Adoro o filme! Inclusive, o recomendo para quem quiser assistir em família ou entre amigos antigos. Identifico-me com várias partes dele, mas discordo de suas mensagens finais. Claro que guardo com muito carinho os meus amigos de infância e da adolescência como a Jaqueline, a Simone, a Claudia, o Luiz Paulo, o Fábio, o Leo Chermont, a Flavia e tantos outros. Mas esses estão apenas na memória ou entre os meus contatos do facebook. No entanto, são com as pessoas que conheci na faculdade, no mundo do trabalho, ou aquelas que conheci através dos meus amigos, que mantenho ótimas e duradouras relações de amizade. Ah! Sim! Também tive a sorte de reconhecer alguns amigos de infância, com os quais tenho tecido novamente antigos laços.
Deste modo, acredito que quando conseguimos nos desprender de preconceitos e daqueles velhos jargões que afirmam que só existe gente falsa e interesseira no mundo adulto e nos permitimos conhecer e ser conhecido por pessoas legais, podemos sim, fazer bons amigos, sejam estes homens ou mulheres.
No entanto, também não dá para ser tão inocente a ponto de achar que nunca há uma “potência sexual” – termo que minha prima Vivi me ensinou e que imediatamente incorporei ao meu vocabulário – numa amizade intersexual.
Mas o fato de gostar da presença daquele seu amigo, que, por acaso é de outro sexo, de ter afinidades com ele, de gostar de trocar impressões sobre a vida, e, às vazes, mesmo discordando, não faltar assunto para conversas, não quer dizer que desejamos fazer sexo ou que nos vejamos romanticamente unimos a ele ou com todos os amigos ou amigas que tenhamos. Ou, mesmo se houver desejo, não significa obrigatoriamente que o sexo vá acontecer, afinal, o que não faltam são motivos para que duas pessoas mantenham sua relação no nível da amizade. Ou ainda que haja sexo, não quer dizer que deixaram de serem amigos. Enfim, é tudo muito complexo!
Sobre esta complexidade toda, uma pesquisadora norte-americana, Heidi Reeder, publicou recentemente um artigo em que classifica os quatro tipos mais comuns de amizade entre homens e mulheres. Observe o quadro[2] abaixo:


       Para tornar ainda mais complicada esta discussão, tem ainda todos aqueles filmes de comédia romântica que fazem questão de mostrar a impossibilidade de uma amizade intersexual desprovida de potência sexual.Você viu algum? Eu vi todos e adoro!
 
       Como a minha vida não é um filme hollywoodiano e tenho alguns bons amigos homens a quem quero muito bem, sem, no entanto, deseja-los sexualmente – se algum deles fossem o Patrick Dempsey, não afirmaria isso com tanta veemência – continuarei lhes preparando lindas mesas de café da manhã, afinal, somos “apenas” amigos, quer você acredite ou não.