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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Mulher estranha esta!

         Quem é esta pessoa que tenho convivido nestes últimos anos? Uma mulher estranha que invadiu a minha casa, o meu espaço e tem se instalado de maneira irresistível na minha vida.


Chegou tímida naquela tarde de outubro de alguns anos atrás quando, após um consenso, “ele” saiu pela porta para não voltar mais. No início permaneceu calada, respeitando minha dor, mas aos poucos foi se apresentando.


Ajudou-me a me desfazer de medos bobos como o medo do escuro, de fantasma, de bichos e, principalmente, o medo de ficar sozinha. Aliás, fez-me ver que essa condição não é tão mal assim e que eu sou uma boa companhia, inclusive para mim mesma. 


Ela me levou a tomar atitudes que já deveriam ter sido tomadas há muito tempo, como o de gostar e cuidar bem de mim. Levou-me a acreditar que algumas visitas ao terapeuta talvez me ajudassem. E não é que ela estava certa?


Mexeu com minha a minha frágil auto-estima. Não sem grande esforço fez mirar-me no espelho para me mostrar o quanto sou bonita e que um corpo com volume tem sua sensualidade. Comecei a usar camisetas sem mangas, vestidos, cores, decotes, salto alto e maquiagem.


Fez-me entender que não adiantava ficar reclamando do calor, do frio, do carro que não tenho, do meu trabalho, do meu corpo, da minha vida. Disse-me que ficar repetindo ao mundo o quanto era infeliz, mal remunerada e injustiçada não ajudaria absolutamente nada, só me tornaria uma pessoa muito chata. Mais produtivo seria começar a fazer escolhas mais acertadas.


Exigiu-me que abandonasse a adolescente que eu teimava em ser e assim, tateando, porém, sem medo, adentrei, finalmente, na vida adulta. Maravilhei-me com uma independência e liberdade nunca antes experimentadas. Parei de sentir aquela estranha sensação de que minha vida ainda ia começar em algum momento. Comecei a viver com entusiasmo.


Mostrou-me que os sonhos de outra época eram bonitos, mas, como sonhos que eram deveriam ficar no seu devido lugar. Segura, positiva e animada disse-me que eu deveria ter projetos concretos e realizáveis e me ensinou a estabelecer prioridades.
         
      Quanto aos homens, me disse para ser compreensiva e tolerante, mas que eu me respeitasse acima de tudo e que nunca mais me contentasse com migalhas. No entanto, me fez entender que deveria aceitar de bom grado e sem culpa alguns momentos de felicidade.

Preveniu-me que, vez por outra, receberei visitas indesejáveis como a tristeza, a insegurança, a carência, o cansaço e o desânimo. Disse-me que todo ser humano tem seus altos e baixos, e que - vá lá entender o porquê - estas visitas fazem-nos crescer. Me prescreveu uma receitinha para não deixá-los instalar-se: Dê atenção a eles apenas por um dia, no máximo dois. Durante este período, chore um pouco, coma chocolate, presentei-se com um vinho - mas nada de beber em copo comum, sirva-se numa taça -, veja uma comédia romântica, ligue para um amigo ou amiga. Durma e acordará com uma nova perspectiva.

Mulher estranha esta! 
Onde você estava nos últimos trinta e oito anos? 
Como assim “dentro de mim”? 
Como foi possível nunca ter te encontrado antes? 
De qualquer maneira, agradeço por ter despertado e se revelado no momento certo.


Para minha irmã Claudia, com amor.

sábado, 28 de janeiro de 2012

A teoria dos pratinhos

Alguns anos atrás, semanalmente, eu fazia uma viagem de aproximadamente 100 km em função do meu trabalho. Assim como eu, outros colegas professores faziam o mesmo e acabamos por formar um grupo bem legal de amigos. Íamos num dia e voltávamos no outro.


Numa destas idas e vindas, Giselle me apresentou a “teoria dos pratinhos”. Foi uma revelação bombástica na minha vida e toda vez que tenho oportunidade passo-a adiante.


Hoje acordei com um sorrisinho maroto e uma carinha de safada - que mais adiante vou explicar - e não consigo parar de pensar em compartilhar a tal teoria. Vamos a ela:

          
           As pessoas interessantes nas nossas vidas – leia-se “aquelas que queremos mais do que uma simples conversa” - são como aqueles pratos do equilibrista de circo. Estão suspensas sobre uma vareta e de quando em quando é preciso dar aquela balançadinha para que não caiam e se quebrem.


Pratinho é uma relação de reciprocidade e, óbvio, as “balançadinhas” têm que vir dos dois lados. Um telefonema, um torpedo, uma conversa rápida (ou demorada) no msn, uma postagem e/ou uma curtida no facebook (nada de cutucadas, peloamordedeus!), um chopp, uma sugestão de filme, um olhar, um toque.


Quando explico a teoria dos pratinhos para a alguém, acho engraçado perceber que todos se identificam com ela. É claro que os solteiros mais prontamente do que os casados ou já comprometidos, mas todos, sem dúvida, conseguem ser ver balançando ou sendo balançado por alguma pessoa.


Depois que descobri esta teoria, comecei a entender melhor e a curtir muito mais o meu relacionamento com os homens. Desencanei. Relaxei. Deixei para trás ideias e preconceitos que adquiri ao longo da minha criação familiar totalmente atrelada aos valores religiosos castradores. Passei a ter uma visão mais masculina – e isso não é de forma alguma uma crítica – sobre a sexualidade (a minha e a do outro). Tornei-me mais pragmática.


Não! Não me tornei promíscua. Os meus pratinhos geralmente são amigos de quem gosto muito, carinhas com os quais tenho afinidades, que têm bom papo, são sensíveis e carinhosos. Viram-se adultos de uma hora para outra e, por isso, muitas vezes são complicados e dispersos como eu. Tiveram, têm ou desejam ter um relacionamento, mas percebem que viver a vida adulta sozinho também pode ser muito, muito interessante.

Encarar uma vida de pratinhos requer uma dose considerável de maturidade e desprendimento.  Inevitavelmente criaremos expectativas e é preciso saber dosá-las para evitar cobranças e frustrações que nada têm a ver com o relacionamento pratinho-pratinho.


Entretanto, no primeiro semestre do ano passado, como uma mulher romântica que sou, apaixonei-me e fui correspondida. Deliberadamente deixei que todos os meus pratinhos se quebrassem. A paixão acabou e passei por uma fase sem paciência para eles.


Contudo, eis que numa noite chuvosa, completamente despretensiosa e totalmente avessa à aquisição de pratinhos, o telefone toca. O tal sorriso maroto e a carinha de safada que percebi hoje de manhã no espelho, e vou além, a cabelo sedoso, o olhar malicioso, as mãos que digitam sedutoramente este texto devem-se a este novo pratinho e a alegria de viver uma vida sem culpa.


Como pagamento as benfeitorias feitas, à você pratinho delicioso, dedico este texto.

Niterói, 28 de janeiro de 2012.