quinta-feira, 15 de março de 2012

A vida alheia me interessa


Já viu alguém com cara de preocupado dizendo “Tenho tanta coisa para resolver!”?
Da minha parte, penso o seguinte: ou a pessoa que diz isso para outra, na verdade, quer se valorizar mostrando que é muito ocupada, ou esta pessoa é muito enrolada e não consegue solucionar de maneira prática as coisas simples do dia a dia.
Para falar a verdade, de uma maneira ou de outra, esta frase sempre me irritou.
Será que só eu que não tenho nada para resolver? Nenhuma burocraciazinha? Nadinha?
Ah... Mas hoje me vi perguntando a mim mesma “Por onde começo?”.
Tive meu dia de pessoa adulta e resolvi várias coisinhas urgentes. Uma delas era recarregar o cartucho de impressora. Coisas de pobre!
Pois bem... Estava eu numa loja de beira de rua esperando o cara fazer o serviço de recarga. Nisso, vejo um homem encostando (quase batendo) sua testa do lado de fora da vidraça que separava a loja da calçada. Era um sujeito com mais ou menos 45 anos, de terno, muito aflito e falava em voz alta ao telefone.
Curiosa e fofoqueira que sou, apurei o ouvido para ouvir o que ele dizia. Algo mais ou menos assim:

Meu amor, de onde você tirou isso?”
“Por que esta desconfiança agora?”
“Péraí, precisamos conversar”. “Calma!”
“Ãh? O que que tem aquela ligação?
“Eu tenho culpa de alguém me ligar às 11h da noite?”
“Querida, já te disse que foi engano”. 
E por aí foi...
      
A telefonia celular tem isso: somos contatados em horas impróprias, recebemos ligações e torpedos por engano, nos tornamos vulneráveis e muitas vezes perdemos a nossa privacidade.
De início me solidarizei com o pobre homem desesperado. Achei que ele estava sendo sincero. Mas depois me lembrei de uma situação exatamente igual vivida por mim há alguns anos atrás. Confesso que tive vontade de me meter na conversa e dizer para o tal "amor" que ela tinha sim, motivos para desconfianças. Explico-me:
Na época meu marido, hoje ex, recebeu uma ligação num sábado à noite. Estávamos aconchegados e aparentemente felizes em casa. Ele deu uma explicação qualquer e me dei por satisfeita. Hoje percebo que queria acreditar nele. Gostava do nosso relacionamento e não estava disposta a fazer grandes mudanças na minha vida. Se eu quisesse tomar uma atitude, teria que procurar razões para isso - o que, sinceramente, não queria na época.
Mas, a partir deste episódio a desconfiança foi sutilmente plantada em mim. Se fosse uma situação isolada e nada mais tivesse acontecido, o tal telefonema teria caído no esquecimento. Mas não foi o que aconteceu. Seguiram-se meses ruins entre nós e o nosso relacionamento foi rolando ladeira abaixo. Até que, quase um ano depois, desta vez num domingo, a mesma coisa aconteceu. Eu já não estava mais feliz e resolvi dar asas às minha desconfiança. Procurei... Procurei... Até que achei o que ninguém quer achar. No entanto, desta vez estava pronta e queria tomar uma atitude. Foi o que fiz.
Hoje estou eu aqui, uma mulher solteira que não está disposta a procurar muitas coisas. No entanto, é preciso deixar claro que estou também por aí e, caso tenha a sorte de ser encontrada por “um amor tranquilo com sabor de fruta mordida”, como já disse Cazuza, ficarei mais feliz do que já estou.
Aos casais quero acrescentar o seguinte: estou afirmando que toda ligação estranha é motivo de desconfiança? Não! Óbvio que não! Como romântica que sou, continuo acreditando no amor e  é por isso que desejo que quem o vive hoje, tenha pela frente anos e anos de cumplicidade, confiança e amor tranquilo.
 Me processe, ECAD!
Niterói, 14 de março de 2012.


domingo, 11 de março de 2012

Mulher solteira não procura


Sou uma mulher solteira que não procura:

Um marido, pois já fui casada.
Um emprego, pois já tenho três.
Quem me sustente financeiramente, pois, bem ou mal, eu consigo fazer isso.
Quem me dê ordens, pois odeio recebe-las.
Casa, pois tenho a minha (alugada, mas ainda assim é minha).
O sentindo da vida, pois descobri que cada pessoa é responsável por lhe atribuir um.
Amigos, pois tenho alguns muito bons.
A verdade, pois ela sempre é relativa.
Alguém que me complete, pois, finalmente, me sinto inteira.
Coisas que perco, pois descobri que isso enlouquece.
Respostas, pois alguém já o fez e as escreveu em livros.
Quem me entenda, pois sou mesmo uma metamorfose ambulante.
Deus, pois Ele está em toda parte.
O amor, mas quero que ele me encontre. Em breve.




quinta-feira, 8 de março de 2012

Coisas abomináveis*


         Tem coisas que eu preferiria ser cega para não ver, surda para não ouvir ou ser uma ermitã para não ter que testemunhar. São 177.056.930 pequenas ou grandes coisas que simplesmente não suporto, abomino.
           
            Eis minha lista:
           
          Sapato apertado; dias de carência; celular usado como rádio em lugares públicos; abuso de poder; engarrafamento na ponte Rio-Niterói; gente muito feliz; depilação; ônibus cheio; coroa dançando funk usando roupas de adolescente; cara que não liga no dia seguinte, nem no outro, nem no outro; TPM; maus tratos contra animais; o verão carioca; televisão ligada em bares e restaurantes; mau hálito; gente que fala alto; homem sem atitude ou, por lado, aquele do tipo “o cara” (que tem atitude demais); burrocracia; noite mal dormida; covardia; o aumento abusivo do preço da passagem das barcas; cheiro de cigarro na roupa e no cabelo; gente que fala demais; flanelinhas; mancha roxa na perna; aluno conversando enquanto estou dando aula; homem que cultiva cachinhos nos cabelos compridos; estupidez; pessoa que diz que odeia política; criança com nariz escorrendo; mau humor (meu e de outrem); cecê; barulhos repetitivos; barulhos de topos os tipos; a gestão do atual prefeito de Niterói; chuva em dia festa; atendimento eletrônico pelo telefone; preconceitos de todos os tipos; cantada de homem feio; dente cariado; zorra total; violência de qualquer tipo; uma pessoa chamando a outra de “nem”; tirar pó dos móveis; gente que buzina por qualquer coisa; últimos dez dias do mês; taxi sem ar condicionado; ser apresentada mil vezes a mesma pessoa e ela responder “prazer”; gente furando fila; motorista de ônibus que passa por trás de outro e não para no seu ponto; ser mal servida em bares e restaurantes; ser cobrada indevidamente; o abominável homem das neves.


Para não ser taxada de tia velha reclamona, segue outra lista.

Coisas deleitáveis

            O por do sol visto da ponte Rio-Niterói; banheira de hidromassagem; gente divertida; boa música; gentileza; adormecer agarrada a algo ou alguém; barulho de cachoeira; elogio sincero; céu estrelado; uma, duas, três, algumas taças de vinho; troca de olhares com um cara bonito na rua; lua cheia; minha mãe rindo num filme bobo; banho de rio, de preferência pelada; realizar um projeto; sexta-feira; sexo (com ou sem amor); chocolate; o visual da lagoa de Araruama; minha própria companhia em dias de felicidade; apaixonar-me; cinema; pisar na grama descalça; cílios volumosos e compridos; fazer as pazes; outono no Rio de Janeiro; chulé de criança bem pequena; CCBB; homem um pouco tímido; o perfume da dama da noite; transar sem camisinha (não recomendável, mas é gostoso); cheiro de chuva; viajar; reencontro de amigos antigos; George Clooney; alunos prestando muita atenção na minha aula; uma massagem bem feita; céu azul; queijo derretido; receber flores (nem que seja uma rosa); roda de violão; cheiro de café; cultivar boas amizades; Quinta da Boa Vista; Capitu e Bentinho; dançar; Costão de Itacoatiara; primeira quinzena do mês; a aterrissagem do avião em que você está; conversa boa; Amelie Poulain; escrever neste blog; maionese deleite.


* Inspirada no crônica homônima de Paulo Mendes Campos.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Cada louco com sua mania

       Como já havia previsto Andy Warhrol, todos terão seus quinze minutos de fama. Acho que estou vivendo os meus.


Na verdade, nem tanto, mas já começo a ser reconhecida como alguém que tem certo talento para escrever as coisas simples do cotidiano.


Ok, ok, ok. Tenho que reconhecer que os leitores deste blog são familiares, amigos de familiares, amigos e amigos dos amigos. Mesmo assim, confesso que estou bem vaidosa com o número de acesso ao blog desde que ele foi criado em dezembro último.


Só para tirar uma ondinha, observe a estatística abaixo:


Está certo que os números revelam que não é nada que dê para ter os meus direitos autorais vendidos e me tornar um grande sucesso de bilheteria, mas já me gabaritou para ouvir um “Aí, Bia... Isso dá uma boa crônica”. Portanto, o que escrevo a seguir, é a entrega da minha primeira encomendada literária.

Como este texto pretende ser uma crônica séria, achei por bem levantar dados empíricos e investir na leitura sobre tema. E assim, depois de vasta pesquisa bibliográfica (minidicionário Aurélio), chego ao conceito:

ma.ni.a sf.
1. Síndrome mental caracterizada por excitação psíquica, insônia, muita atividade, etc., e, em certos casos, agitação motora. 2. Esquisitice, excentricidade. 3. Gosto exagerado por algo. 4. Ideia fixa doentia; obsessão. 5. cacoete

Já as entrevistas que realizei através de uma rede social às duas da madrugada de um domingo revelam dados surpreendentes quanto à diversidade de estranhezas e esquisitices praticadas por seres humanos próximos a mim. Na lista que segue abaixo, estão contidas algumas destas manias colhidas nas entrevistas. Elas estão agrupadas em categorias usadas no conceito acima. Vamos às elas:

1.   Síndrome mental caracterizada por excitação psíquica, insônia, muita atividade, etc., e, em certos casos, agitação motora:
- Roer unhas;
- Abrir a geladeira para refrescar as ideias;
- Só conseguir dormir com o barulhinho do ventilador ligado;
- Cantar no chuveiro;
- Sacudir as pernas freneticamente;
- Marcar as horas que você acordou durante a madrugada e fazer relatório sobre isso com alguém;
- Arrancar seus próprios fios de cabelos “toinhonhons” para alisá-los;
- Futucar a palma da mão com a unha até conseguir arrancar um pedaço de pele;
- Ficar enrolando uma mecha de cabelos nos dedos durante horas.

2. Esquisitice, excentricidade: 
- Sempre, eu disse SEMPRE, deixar um restinho de leite, de suco, de água ou de qualquer líquido no copo/xícara;
- Colecionar frascos de shampoo, condicionar, perfume, loções hidrantes, etc. Usar vários ao mesmo tempo para não se livrar das antigas;
- Não pisar na linha de divisão das calçadas nas ruas;
- Lamber o ombro e a clavícula e depois assoprar;
- Dormir de meia, mesmo no calor infernal do verão carioca;
- Se cobrir todo, mas deixar os pés de fora.

3. Gosto exagerado por algo:
- Jessica Alba;
- Comprar canetas, sapatos, bolsas, caixas, etc.;
- Falar mal da vida alheia;
- Ler absolutamente tudo que está ao alcance dos seus olhos: bulas de remédio, placas de carro, dizeres rabiscados em porta de banheiros públicos.

4. Ideia fixa doentia; obsessão;
- Olhar embaixo das camas e atrás das portas para se certificar que não há ninguém ali;
- Sempre verificar se a porta esta fechada;

5. Cacoete
Esta categoria merece alguns parágrafos.

Estava eu numa festa conversando tranquilamente e, sem mais, nem por que, a minha interlocutora leva “um bote”.

Bote é o nome que damos a uma mania que um velho conhecido meu tem de passar as costas de sua mão direita na boca de outra pessoa. Não entendeu? Pena que não dá para desenhar! Mas é isso (tente visualizar): você está parado, tranquilo, desarmado e vem alguém e passa as costas das mãos em sua boca. Simples assim.

Tal como um serial killer, o tal maníaco escolhe as vitimas a partir de uma anatomia facial que combine lábios levemente espessos com um nariz levemente arrebitado. Algo mais ou menos assim:


Poderia ser considerada uma tara caso o autor dos botes fizesse isso secretamente. Mas não, ele faz questão de agir publicamente e ri-se todo comemorando o seu sucesso, divertindo a todos, inclusive a própria vítima. O mais absurdo é a cara de satisfação dele após cada bote. Num mesmo dia, presenciei três botes em três pessoas diferentes. Foi uma das vítimas quem sugeriu que eu escrevesse esta crônica.

Manias, tiques, cacoetes, pequenas obsessões todos nós temos. Se elas não atrapalham a sua vida e não ferem ninguém, não há porque se desesperar. Relaxe, você não é um louco e se for, cuide-se, mas lembre-se, “de perto, ninguém e normal”. Na verdade "mais louco é quem me diz que não é feliz".




quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Feliz Aniversário! Envelheço na cidade

         Meu aniversário começou às 0h do dia 28 de fevereiro.

        Conectados a um chat de uma rede social da internet, três amigos muito fofos e atenciosos acompanharam pacientemente a minha contagem regressiva. Quando o relógio deu meia noite, eu mesma publiquei o fato de estar completando 38 anos. Seguiu-se, então, uma chuva branda de comentários e mensagens com felicitações. Tirando uma música dedicada a mim - obrigada, Renata! – os cumprimentos foram aqueles de sempre: “Felicidades”, “Saúde”, “Continue assim”, “Sucesso”, etc, etc, etc. 

Quando os comentários foram rareando, resolvi me preparar para deitar. Estava sonolenta após duas taças de uma garrafa de vinho que havia comprado mais cedo para me presentear. Sobre a minha recém-descoberta do prazer de beber um bom vinho, segue-se algumas poucas considerações.

Assim como a maioria das mulheres, sempre gostei de bebidas doces. A caipirinha é o meu drink preferido. Cerveja até bebo, mas, mais por hábito do que por prazer. De vinho eu gostava daqueles bem vagabundos, docinhos, que “pegavam rápido” e me deixavam com dor de cabeça no dia seguinte. Pensando bem agora no assunto, reconheço que tenho bebido bastante nos últimos tempos. Calma! Nada que dê para gerar preocupações. Meus vícios são outros...

Pois então, já havia arriscado a beber vinho de verdade ao tentar acompanhar meus irmãos e irmãs e alguns amigos, mas, qual o quê? Achava amargo, seco, sem graça! Foi só depois de uma temporada romântica no inverno de Friburgo que comecei, de fato, a apreciar. Agora, vira e mexe, no frio ou no calor, sozinha ou acompanhada, basta estar inspirada, ou querer me presentear e relaxar, que me meto a degustar um bom vinho. Se bem que tenho uma amiga que diz que mulher solteira não deve ficar bebendo vinho sozinha em casa, pois acaba ficando mais carente do que costuma ser. Ela tem certa razão. Meninas, se forem beber sozinhas, não se conectem a internet e, por favor, desliguem os celulares. A gente acaba ficando muito romântica e, consequentemente, fazendo merda.

Contudo, esta crônica é sobre o meu aniversário, não sobre vinho. Voltemos.

Fui acordada com um torpedo do meu ex-marido me felicitando. Levantei antes do que queria e mal humorada com o calor. Espiei pela janela e constatei que o céu estava nublado e o dia muito abafado. Olhei-me no espelho e percebi que minha aparência não era das melhores. Pensei: “Caramba! Estou mesmo envelhecida!” Para melhorar a autoestima, desci para o salão, mas a cabeleira já tinha outra cliente - nem no meu aniversário tenho prioridade? Soube por ela que era preciso tomar cuidado com o sol, pois, segundo o que tinha ouvido dizer na televisão, o nível de radiação estava mais alto do que o normal. Ótimo receber esta informação quando se está fazendo trinta e oito anos! Protetor solar! Muito protetor solar! Tenho que começar a usá-lo diariamente. Hummm... Lembrei-me daquele vídeo “Filtro solar”. Vale a pena rever, combina bem com esta situação de aniversário.

Ainda no salão, recebi a ligação da minha querida amiga que está na França. Fiquei contentíssima, mas angustiada ao pensar no valor que ela pagaria por uma ligação internacional para celular. Talvez seja por isso, não sei, mas me senti tão distante dela! “Óbvio! Estão em continente diferentes”, você pode pensar. Mas era aquela outra distância, sabe? Tínhamos o hábito de nos ligar por coisas triviais. Mas assim... Tão distantes uma da outra isso parece um luxo desnecessário. Saudade de você, amiga!

De volta a casa, mais ligações e torpedos.

No entanto, nenhuma grande surpresa. Nenhuma cesta de café da manhã. Nenhuma foto em colunas sociais. Nenhum buquê de flores de um admirador, nenhuma faixa ou outdoor com meu nome na rua.  Será que as pessoas fazem mesmo isso por alguém ou é o próprio aniversariante, que, numa atitude desesperada de ser sentir lembrado e feliz, envia para si mesmo? Talvez eu tente isso no ano que vem.


Pus-me a refletir sobre dias de aniversário e foram estes pensamentos - alguns um tanto sombrios - que me motivaram a começar a escrever esta crônica.

Dei-me conta - ou pelo menos só agora internalizei - que o aniversário é para quem está diretamente ligado a ele, ou seja, o próprio aniversariante.

O calor ou a chuva não serão evitados porque é o seu dia. O comércio frenético, o trânsito ruim, o mercado financeiro, a exploração do homem sobre o homem, a péssima administração do atual prefeito da sua cidade, o aumento do preço da passagem das barcas, e tantas outras coisas do cotidiano serão uma realidade a despeito do seu aniversário. Você provavelmente terá que ir trabalhar. Ninguém te dará o lugar a frente, caso precise enfrentar uma fila de banco. O trocador do ônibus - ou o taxista, se você se der o luxo de usá-lo neste dia - te cobrarão pelo transporte. Talvez você receba um desconto daquela livraria que você é cliente, mas terá que pagar integralmente o valor do ingresso do cinema. Aquela sua irmã que faz doces maravilhosos não poderá preparar sua torta porque está trabalhando no dia. Sua mãe idosa poderá se sentir mal e você ficará preocupada. A tal consulta médica que mudará sua vida ao melhorar sua saúde, será marcada justamente no dia do seu aniversário.

Se você resolver marcar alguma comemoração - seja ela qual for - seus convidados, antes de qualquer coisa, pensarão no transtorno que será ter que se organizarem para comparecer. Certo é que, se eles conseguirem se fazer presentes, ficarão contagiados pela sua alegria ao recebe-los. Mas, se você resolver cometer a insanidade de comemorar no próprio dia, sendo este no meio da semana, misericórdia! Provavelmente te xingarão. Imagine então um aniversário no final do mês e caindo numa 3ª feira pós-carnaval! Mas vamos lá, façam este sacrífico por mim.

Como estava com pouca grana, resolvi comemorar num bar onde cada convidado pagaria sua conta. O bar foi sugerido por uma prima e não podia ser mais a minha cara (é muito bom quando as pessoas te conhecem bem). Não contei, mas acho que compararecem cerca de 40 pessoas. Lotou o bar. Nada mal, dada as circunstâncias da data. Uma outra prima brincou dizendo que se orgulhava de mim por ser tão popular.

Popular eu? Nunca me vi assim. Na verdade sempre me pergunto porque as pessoas gostam de mim. Sou franca demais, implicante demais, incoveniente na maioria das vezes. Será que não percebem todos os meus defeitos de caráter? Inclusive a futilidade que, segundo um amigo antigo, tenho adquirido nos últimos tempos. Talvez ele tenha razão. Tão politizada que era e até agora ainda não me dei o trabalho de escrever sobre algo realmente sério. Lembrei-me daquela frase: “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”. Ao me aproximar dos 40 anos, estou capitulando.

Apesar de todos esses defeitos, hoje me senti querida. Recebi abraços, beijos, lembranças e mensagens de familiares e amigos. Talvez amizade seja mesmo aquele velho clichê que afirma que seus verdadeiros amigos são aqueles que conhecem seus defeitos e, mesmo assim, gostam de você.

No entanto, senti falta do contato de algumas pessoas. Senti falta do telefonema do meu sobrinho Rodolfo, do Zé, da Rafa, do Bruno, do Conrado, da Milla, da tia Dodora, do meu primo Maurício e da minha cunhada Sandra. Mas agradeço se ao menos eles tiverem pensado em mim hoje. Se não hoje, agradeço pelos dias que pensaram em mim com carinho.

E por falar em agradecimento, dia de aniversário é um bom dia para isso e assim,  segue minha lista: agradeço a Deus, a Deusa, Luz, Javé, Poder Superior, Olorum, Mãe Natureza, ou seja lá que nome deem, pelas oportunidades que me foram dadas na vida, inclusive a de ganhar os novos e já tão queridos amigos (isso inclui meus amigos-alunos adolescentes) e manter aqueles antigos como você, amiga querida - que me atura interruptamente por mais de vinte anos. Tem também a galerinha que estudei na escola primária que, apesar dos mais de vinte anos de separação, hoje formamos um grupo coeso e muito animado. Como esquecer dos meus primos e primas? Mais do que familiares, são parceiros da vida, inspiração e leitores ávidos deste modesto blog. Por fim, agradeço à minha grande família, especialmente aos meus pais e irmãos, porto seguro de todas as horas. 

Afinal, meu aniversário acabou. Estou em casa agora. Ganhei poucos presentes, não ouvi uma declaração de amor, mas recebi flores de uma amiga. Vou dormir sozinha daqui a pouco.  

Tenho que concluir esta crônica, mas fiquei olhando para a tela por muitos minutos e não encontrei nada de muito impactante para fechar. Portanto, por falta de palavras minhas, uso as do Frejat para felicitar a todos os aniversariantes esperançosos como eu:




Niterói, 28 de fevereiro de 2012.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Mulher estranha esta!

         Quem é esta pessoa que tenho convivido nestes últimos anos? Uma mulher estranha que invadiu a minha casa, o meu espaço e tem se instalado de maneira irresistível na minha vida.


Chegou tímida naquela tarde de outubro de alguns anos atrás quando, após um consenso, “ele” saiu pela porta para não voltar mais. No início permaneceu calada, respeitando minha dor, mas aos poucos foi se apresentando.


Ajudou-me a me desfazer de medos bobos como o medo do escuro, de fantasma, de bichos e, principalmente, o medo de ficar sozinha. Aliás, fez-me ver que essa condição não é tão mal assim e que eu sou uma boa companhia, inclusive para mim mesma. 


Ela me levou a tomar atitudes que já deveriam ter sido tomadas há muito tempo, como o de gostar e cuidar bem de mim. Levou-me a acreditar que algumas visitas ao terapeuta talvez me ajudassem. E não é que ela estava certa?


Mexeu com minha a minha frágil auto-estima. Não sem grande esforço fez mirar-me no espelho para me mostrar o quanto sou bonita e que um corpo com volume tem sua sensualidade. Comecei a usar camisetas sem mangas, vestidos, cores, decotes, salto alto e maquiagem.


Fez-me entender que não adiantava ficar reclamando do calor, do frio, do carro que não tenho, do meu trabalho, do meu corpo, da minha vida. Disse-me que ficar repetindo ao mundo o quanto era infeliz, mal remunerada e injustiçada não ajudaria absolutamente nada, só me tornaria uma pessoa muito chata. Mais produtivo seria começar a fazer escolhas mais acertadas.


Exigiu-me que abandonasse a adolescente que eu teimava em ser e assim, tateando, porém, sem medo, adentrei, finalmente, na vida adulta. Maravilhei-me com uma independência e liberdade nunca antes experimentadas. Parei de sentir aquela estranha sensação de que minha vida ainda ia começar em algum momento. Comecei a viver com entusiasmo.


Mostrou-me que os sonhos de outra época eram bonitos, mas, como sonhos que eram deveriam ficar no seu devido lugar. Segura, positiva e animada disse-me que eu deveria ter projetos concretos e realizáveis e me ensinou a estabelecer prioridades.
         
      Quanto aos homens, me disse para ser compreensiva e tolerante, mas que eu me respeitasse acima de tudo e que nunca mais me contentasse com migalhas. No entanto, me fez entender que deveria aceitar de bom grado e sem culpa alguns momentos de felicidade.

Preveniu-me que, vez por outra, receberei visitas indesejáveis como a tristeza, a insegurança, a carência, o cansaço e o desânimo. Disse-me que todo ser humano tem seus altos e baixos, e que - vá lá entender o porquê - estas visitas fazem-nos crescer. Me prescreveu uma receitinha para não deixá-los instalar-se: Dê atenção a eles apenas por um dia, no máximo dois. Durante este período, chore um pouco, coma chocolate, presentei-se com um vinho - mas nada de beber em copo comum, sirva-se numa taça -, veja uma comédia romântica, ligue para um amigo ou amiga. Durma e acordará com uma nova perspectiva.

Mulher estranha esta! 
Onde você estava nos últimos trinta e oito anos? 
Como assim “dentro de mim”? 
Como foi possível nunca ter te encontrado antes? 
De qualquer maneira, agradeço por ter despertado e se revelado no momento certo.


Para minha irmã Claudia, com amor.