Cientista Social por formação, professora na profissão.
Feminista na maior parte do tempo, mas mulherzinha quando quero ser.
Filha, irmã, tia, amiga, amante dedicada.
Aos 38 anos me descobri cronista e este blog é fruto desta descoberta.
Já viu alguém
com cara de preocupado dizendo “Tenho tanta coisa para resolver!”?
Da
minha parte, penso o seguinte: ou a pessoa que diz isso para outra, na verdade,
quer se valorizar mostrando que é muito ocupada, ou esta pessoa é muito
enrolada e não consegue solucionar de maneira prática as coisas simples do dia
a dia.
Para
falar a verdade, de uma maneira ou de outra, esta frase sempre me irritou.
Será
que só eu que não tenho nada para resolver? Nenhuma burocraciazinha? Nadinha?
Ah...
Mas hoje me vi perguntando a mim mesma “Por onde começo?”.
Tive meu
dia de pessoa adulta e resolvi várias coisinhas urgentes. Uma delas era recarregar
o cartucho de impressora. Coisas de pobre!
Pois
bem... Estava eu numa loja de beira de rua esperando o cara fazer o serviço de
recarga. Nisso, vejo um homem encostando (quase batendo) sua testa do lado de
fora da vidraça que separava a loja da calçada. Era um sujeito com mais ou
menos 45 anos, de terno, muito aflito e falava em voz alta ao telefone.
Curiosa
e fofoqueira que sou, apurei o ouvido para ouvir o que ele dizia. Algo mais ou
menos assim:
Meu
amor, de onde você tirou isso?”
“Por
que esta desconfiança agora?”
“Péraí,
precisamos conversar”. “Calma!”
“Ãh? O
que que tem aquela ligação?
“Eu tenho
culpa de alguém me ligar às 11h da noite?”
“Querida,
já te disse que foi engano”.
E por aí foi...
A
telefonia celular tem isso: somos contatados em horas impróprias, recebemos
ligações e torpedos por engano, nos tornamos vulneráveis e muitas vezes
perdemos a nossa privacidade.
De
início me solidarizei com o pobre homem desesperado. Achei que ele estava sendo
sincero. Mas depois me lembrei de uma situação exatamente igual vivida por mim
há alguns anos atrás. Confesso que tive vontade de me meter na conversa
e dizer para o tal "amor" que ela tinha sim, motivos para
desconfianças. Explico-me:
Na
época meu marido, hoje ex, recebeu uma ligação num sábado à noite. Estávamos aconchegados e aparentemente felizes em casa. Ele deu uma explicação
qualquer e me dei por satisfeita. Hoje percebo que queria acreditar nele. Gostava do nosso relacionamento e não
estava disposta a fazer grandes mudanças na minha vida. Se eu quisesse tomar
uma atitude, teria que procurar razões para isso - o que, sinceramente, não
queria na época.
Mas, a
partir deste episódio a desconfiança foi sutilmente plantada em mim. Se fosse
uma situação isolada e nada mais tivesse acontecido, o tal telefonema teria caído
no esquecimento. Mas não foi o que aconteceu. Seguiram-se meses ruins entre nós
e o nosso relacionamento foi rolando ladeira abaixo. Até que, quase um ano
depois, desta vez num domingo, a mesma coisa aconteceu. Eu já não estava mais feliz e resolvi dar asas às minha desconfiança. Procurei... Procurei... Até que achei o que ninguém quer achar. No
entanto, desta vez estava pronta e queria tomar uma atitude. Foi o que fiz.
Hoje
estou eu aqui, uma mulher solteira que não está disposta a procurar
muitas coisas. No entanto, é preciso deixar claro que estou também por aí
e, caso tenha a sorte de ser encontrada por “um amor tranquilo com sabor de
fruta mordida”, como já disse Cazuza, ficarei mais feliz do que já estou.
Aos
casais quero acrescentar o seguinte: estou afirmando que toda ligação estranha
é motivo de desconfiança? Não! Óbvio que não! Como romântica que sou, continuo acreditando no amor e é por isso que desejo que quem o vive hoje, tenha pela frente anos e anos de cumplicidade, confiança e amor tranquilo.
Tem coisas que eu preferiria ser cega
para não ver, surda para não ouvir ou ser uma ermitã para não ter que
testemunhar. São 177.056.930 pequenas ou grandes coisas que simplesmente não
suporto, abomino.
Eis
minha lista:
Sapato
apertado; dias de carência; celular usado como rádio em lugares públicos; abuso
de poder; engarrafamento na ponte Rio-Niterói; gente muito feliz; depilação; ônibus
cheio; coroa dançando funk usando roupas de adolescente; cara que não liga no
dia seguinte, nem no outro, nem no outro; TPM; maus tratos contra animais; o
verão carioca; televisão ligada em bares e restaurantes; mau hálito; gente que
fala alto; homem sem atitude ou, por lado, aquele do tipo “o cara” (que tem
atitude demais); burrocracia; noite mal dormida; covardia; o aumento abusivo do
preço da passagem das barcas; cheiro de cigarro na roupa e no cabelo; gente que
fala demais; flanelinhas; mancha roxa na perna; aluno conversando enquanto
estou dando aula; homem que cultiva cachinhos nos cabelos compridos; estupidez;
pessoa que diz que odeia política; criança com nariz escorrendo; mau humor (meu
e de outrem); cecê; barulhos repetitivos; barulhos de topos os tipos; a gestão
do atual prefeito de Niterói; chuva em dia festa; atendimento eletrônico pelo
telefone; preconceitos de todos os tipos; cantada de homem feio; dente cariado;
zorra total; violência de qualquer tipo; uma pessoa chamando a outra de “nem”; tirar
pó dos móveis; gente que buzina por qualquer coisa; últimos dez dias do mês; taxi
sem ar condicionado; ser apresentada mil vezes a mesma pessoa e ela responder “prazer”;
gente furando fila; motorista de ônibus que passa
por trás de outro e não para no seu ponto; ser mal servida em bares e
restaurantes; ser cobrada indevidamente; o abominável homem das neves.
Para não ser
taxada de tia velha reclamona, segue outra lista.
Coisas
deleitáveis
O
por do sol visto da ponte Rio-Niterói; banheira de hidromassagem; gente
divertida; boa música; gentileza; adormecer agarrada a algo ou alguém; barulho
de cachoeira; elogio sincero; céu estrelado; uma, duas, três, algumas taças de
vinho; troca de olhares com um cara bonito na rua; lua cheia; minha mãe rindo
num filme bobo; banho de rio, de preferência pelada; realizar um projeto; sexta-feira;
sexo (com ou sem amor); chocolate; o visual da lagoa de Araruama; minha própria
companhia em dias de felicidade; apaixonar-me; cinema; pisar na grama descalça; cílios volumosos
e compridos; fazer as pazes; outono no Rio de Janeiro; chulé de criança bem
pequena; CCBB; homem um pouco tímido; o perfume da dama da noite; transar sem
camisinha (não recomendável, mas é gostoso); cheiro de chuva; viajar; reencontro
de amigos antigos; George Clooney; alunos prestando muita atenção na minha
aula; uma massagem bem feita; céu azul; queijo derretido; receber flores (nem
que seja uma rosa); roda de violão; cheiro de café; cultivar boas amizades; Quinta
da Boa Vista; Capitu e Bentinho; dançar; Costão de Itacoatiara; primeira
quinzena do mês; a aterrissagem do avião em que você está; conversa boa; Amelie Poulain;escrever
neste blog; maionese deleite.
* Inspirada no crônica homônima de Paulo Mendes Campos.
Como já havia previsto
Andy Warhrol, todos terão seus quinze minutos de fama. Acho que estou vivendo
os meus.
Na verdade, nem tanto,
mas já começo a ser reconhecida como alguém que tem certo talento para escrever
as coisas simples do cotidiano.
Ok, ok, ok. Tenho que
reconhecer que os leitores deste blog são familiares, amigos de familiares, amigos
e amigos dos amigos. Mesmo assim, confesso que estou bem vaidosa com o número
de acesso ao blog desde que ele foi criado em dezembro último.
Só para tirar uma
ondinha, observe a estatística abaixo:
Está certo que os números
revelam que não é nada que dê para ter os meus direitos autorais vendidos e me
tornar um grande sucesso de bilheteria, mas já me gabaritou para ouvir um “Aí,
Bia... Isso dá uma boa crônica”. Portanto, o que escrevo a seguir, é a entrega
da minha primeira encomendada literária.
Como este texto
pretende ser uma crônica séria, achei por bem levantar dados empíricos e investir
na leitura sobre tema. E assim, depois de vasta pesquisa bibliográfica (minidicionário Aurélio), chego ao conceito:
ma.ni.a sf.
1. Síndrome mental caracterizada por excitação
psíquica, insônia, muita atividade, etc., e, em certos casos, agitação motora. 2.Esquisitice, excentricidade.3.Gosto exagerado por algo.4. Ideia fixa doentia; obsessão. 5. cacoete
Já as
entrevistas que realizei através de uma rede social às duas da madrugada de um
domingo revelam dados surpreendentes quanto à diversidade de estranhezas e
esquisitices praticadas por seres humanos próximos a mim. Na lista que segue
abaixo, estão contidas algumas destas manias colhidas nas entrevistas. Elas
estão agrupadas em categorias usadas no conceito acima. Vamos às elas:
1.Síndrome mental caracterizada por excitação
psíquica, insônia, muita atividade, etc., e, em certos casos, agitação motora:
- Roer
unhas;
- Abrir
a geladeira para refrescar as ideias;
- Só
conseguir dormir com o barulhinho do ventilador ligado;
- Cantar
no chuveiro;
- Sacudir
as pernas freneticamente;
- Marcar
as horas que você acordou durante a madrugada e fazer relatório sobre isso com alguém;
- Arrancar
seus próprios fios de cabelos “toinhonhons” para alisá-los;
- Futucar
a palma da mão com a unha até conseguir arrancar um pedaço de pele;
- Ficar
enrolando uma mecha de cabelos nos dedos durante horas.
2.Esquisitice, excentricidade:
- Sempre,
eu disse SEMPRE, deixar um restinho de leite, de suco, de água ou de qualquer líquido
no copo/xícara; - Colecionar frascos de shampoo, condicionar, perfume, loções hidrantes, etc. Usar vários ao mesmo tempo para não se livrar das antigas;
- Não
pisar na linha de divisão das calçadas nas ruas;
- Lamber
o ombro e a clavícula e depois assoprar;
- Dormir
de meia, mesmo no calor infernal do verão carioca;
- Se
cobrir todo, mas deixar os pés de fora.
3.Gosto exagerado por algo:
- Jessica Alba;
- Comprar
canetas, sapatos, bolsas, caixas, etc.;
- Falar
mal da vida alheia;
- Ler
absolutamente tudo que está ao alcance dos seus olhos: bulas de remédio, placas
de carro, dizeres rabiscados em porta de banheiros públicos.
4. Ideia fixa
doentia; obsessão;
- Olhar
embaixo das camas e atrás das portas para se certificar que não há ninguém ali;
- Sempre verificar se a porta esta
fechada;
5. Cacoete
Esta
categoria merece alguns parágrafos.
Estava eu
numa festa conversando tranquilamente e, sem mais, nem por que, a minha
interlocutora leva “um bote”.
Bote é o
nome que damos a uma mania que um velho conhecido meu tem de passar as costas
de sua mão direita na boca de outra pessoa. Não entendeu? Pena que não dá para
desenhar! Mas é isso (tente visualizar): você está parado, tranquilo, desarmado
e vem alguém e passa as costas das mãos em sua boca. Simples assim.
Tal como um serial killer, o tal maníaco escolhe as
vitimas a partir de uma anatomia facial que combine lábios levemente espessos
com um nariz levemente arrebitado. Algo mais ou menos assim:
Poderia ser considerada uma tara caso
o autor dos botes fizesse isso secretamente. Mas não, ele faz questão de agir
publicamente e ri-se todo comemorando o seu sucesso, divertindo a todos, inclusive
a própria vítima. O mais absurdo é a cara de satisfação dele após cada bote. Num
mesmo dia, presenciei três botes em três pessoas diferentes. Foi uma das
vítimas quem sugeriu que eu escrevesse esta crônica.
Manias,
tiques, cacoetes, pequenas obsessões todos nós temos. Se elas não atrapalham a
sua vida e não ferem ninguém, não há porque se desesperar. Relaxe, você não é
um louco e se for, cuide-se, mas lembre-se, “de perto, ninguém e normal”. Na verdade "mais louco é quem me diz que não é feliz".
Meu aniversário começou às 0h do dia
28 de fevereiro.
Conectados a um chat de
uma rede social da internet, três amigos muito fofos e atenciosos acompanharam
pacientemente a minha contagem regressiva. Quando o relógio deu meia noite, eu
mesma publiquei o fato de estar completando 38 anos. Seguiu-se, então, uma
chuva branda de comentários e mensagens com felicitações. Tirando uma música
dedicada a mim - obrigada, Renata! – os cumprimentos foram aqueles de sempre:
“Felicidades”, “Saúde”, “Continue assim”, “Sucesso”, etc, etc, etc.
Quando os comentários
foram rareando, resolvi me preparar para deitar. Estava sonolenta após duas
taças de uma garrafa de vinho que havia comprado mais cedo para me presentear. Sobre a minha recém-descoberta
do prazer de beber um bom vinho, segue-se algumas poucas considerações.
Assim como a maioria das
mulheres, sempre gostei de bebidas doces. A caipirinha é o meu drink preferido.
Cerveja até bebo, mas, mais por hábito do que por prazer. De vinho eu gostava
daqueles bem vagabundos, docinhos, que “pegavam rápido” e me deixavam com dor
de cabeça no dia seguinte. Pensando bem agora no assunto, reconheço que tenho bebido
bastante nos últimos tempos. Calma! Nada que dê para gerar preocupações. Meus
vícios são outros...
Pois então, já havia arriscado
a beber vinho de verdade ao tentar acompanhar meus irmãos e irmãs e alguns
amigos, mas, qual o quê? Achava amargo, seco, sem graça! Foi só depois de uma
temporada romântica no inverno de Friburgo que comecei, de fato, a apreciar.
Agora, vira e mexe, no frio ou no calor, sozinha ou acompanhada, basta estar inspirada,
ou querer me presentear e relaxar, que me meto a degustar um bom vinho. Se bem
que tenho uma amiga que diz que mulher solteira não deve ficar bebendo vinho
sozinha em casa, pois acaba ficando mais carente do que costuma ser. Ela tem
certa razão. Meninas, se forem beber sozinhas, não se conectem a internet e,
por favor, desliguem os celulares. A gente acaba ficando muito romântica e,
consequentemente, fazendo merda.
Contudo, esta crônica é
sobre o meu aniversário, não sobre vinho. Voltemos.
Fui acordada com um
torpedo do meu ex-marido me felicitando. Levantei antes do que queria e mal humorada
com o calor. Espiei pela janela e constatei que o céu estava nublado e o dia
muito abafado. Olhei-me no espelho e percebi que minha aparência não era das
melhores. Pensei: “Caramba! Estou mesmo envelhecida!” Para melhorar a autoestima,
desci para o salão, mas a cabeleira já tinha outra cliente - nem no meu
aniversário tenho prioridade? Soube por ela que era preciso tomar cuidado com o
sol, pois, segundo o que tinha ouvido dizer na televisão, o nível de radiação
estava mais alto do que o normal. Ótimo receber esta informação quando se está
fazendo trinta e oito anos! Protetor solar! Muito protetor solar! Tenho que
começar a usá-lo diariamente. Hummm... Lembrei-me daquele vídeo “Filtro solar”.
Vale a pena rever, combina bem com esta situação de aniversário.
Ainda no salão, recebi a
ligação da minha querida amiga que está na França. Fiquei contentíssima, mas
angustiada ao pensar no valor que ela pagaria por uma ligação internacional
para celular. Talvez seja por isso, não sei, mas me senti tão distante dela!
“Óbvio! Estão em continente diferentes”, você pode pensar. Mas era aquela outra
distância, sabe? Tínhamos o hábito de nos ligar por coisas triviais. Mas assim...
Tão distantes uma da outra isso parece um luxo desnecessário. Saudade de você,
amiga!
De volta a casa, mais
ligações e torpedos.
No entanto, nenhuma
grande surpresa. Nenhuma cesta de café da manhã. Nenhuma foto em colunas
sociais. Nenhum buquê de flores de um admirador, nenhuma faixa ou outdoor com meu nome na
rua. Será que as pessoas fazem mesmo
isso por alguém ou é o próprio aniversariante, que, numa atitude desesperada de
ser sentir lembrado e feliz, envia para si mesmo? Talvez eu tente isso no ano
que vem.
Pus-me a refletir sobre
dias de aniversário e foram estes pensamentos - alguns um tanto sombrios - que
me motivaram a começar a escrever esta crônica.
Dei-me conta - ou pelo
menos só agora internalizei - que o aniversário é para quem está diretamente
ligado a ele, ou seja, o próprio aniversariante.
O calor ou a chuva não
serão evitados porque é o seu dia. O comércio frenético, o trânsito ruim, o
mercado financeiro, a exploração do homem sobre o homem, a péssima administração
do atual prefeito da sua cidade, o aumento do preço da passagem das barcas, e tantas outras coisas do cotidiano serão uma realidade a despeito do seu aniversário. Você provavelmente terá
que ir trabalhar. Ninguém te dará o lugar a frente, caso precise enfrentar uma
fila de banco. O trocador do ônibus - ou o taxista, se você se der o luxo de
usá-lo neste dia - te cobrarão pelo transporte. Talvez você receba um desconto
daquela livraria que você é cliente, mas terá que pagar integralmente o valor
do ingresso do cinema. Aquela sua irmã que faz doces maravilhosos não poderá
preparar sua torta porque está trabalhando no dia. Sua mãe idosa poderá se
sentir mal e você ficará preocupada. A tal consulta médica que mudará sua vida
ao melhorar sua saúde, será marcada justamente no dia do seu aniversário.
Se você resolver marcar
alguma comemoração - seja ela qual for - seus convidados, antes de qualquer
coisa, pensarão no transtorno que será ter que se organizarem para comparecer. Certo
é que, se eles conseguirem se fazer presentes, ficarão contagiados pela sua
alegria ao recebe-los. Mas, se você resolver cometer a insanidade de comemorar
no próprio dia, sendo este no meio da semana, misericórdia! Provavelmente te
xingarão. Imagine então um aniversário no final do mês e caindo numa 3ª feira pós-carnaval!
Mas vamos lá, façam este sacrífico por mim.
Como estava com pouca grana, resolvi comemorar num bar onde cada convidado
pagaria sua conta. O bar foi sugerido por uma prima e não podia ser mais a
minha cara (é muito bom quando as pessoas te conhecem bem). Não contei, mas acho que compararecem cerca de 40 pessoas. Lotou o
bar. Nada mal, dada as circunstâncias da data. Uma outra prima brincou dizendo
que se orgulhava de mim por ser tão popular.
Popular eu? Nunca me vi assim. Na verdade sempre me pergunto porque as
pessoas gostam de mim. Sou franca demais, implicante demais, incoveniente na
maioria das vezes. Será que não percebem todos os meus defeitos de caráter?
Inclusive a futilidade que, segundo um amigo antigo, tenho adquirido nos
últimos tempos. Talvez ele tenha razão. Tão politizada que era e até agora ainda
não me dei o trabalho de escrever sobre algo realmente sério. Lembrei-me
daquela frase: “Não confie em ninguém com mais de trinta anos”. Ao me aproximar dos 40
anos, estou capitulando.
Apesar de todos esses defeitos, hoje me senti querida. Recebi
abraços, beijos, lembranças e mensagens de familiares e amigos. Talvez amizade
seja mesmo aquele velho clichê que afirma que seus verdadeiros amigos são
aqueles que conhecem seus defeitos e, mesmo assim, gostam de você.
No entanto, senti falta do contato de algumas pessoas. Senti
falta do telefonema do meu sobrinho Rodolfo, do Zé, da Rafa, do Bruno, do Conrado, da
Milla, da tia Dodora, do meu primo Maurício e da minha cunhada Sandra. Mas agradeço se ao menos eles tiverem pensado
em mim hoje. Se não hoje, agradeço pelos dias que pensaram em mim com carinho.
E por falar em agradecimento, dia de aniversário é um bom dia para isso e assim, segue minha lista: agradeço a Deus, a Deusa, Luz, Javé, Poder
Superior, Olorum, Mãe Natureza, ou seja lá que
nome deem, pelas oportunidades que me foram dadas na vida, inclusive a de ganhar os novos e já tão queridos amigos (isso inclui meus amigos-alunos adolescentes) e manter aqueles antigos como você, amiga querida - que me atura interruptamente por mais de vinte anos. Tem também a galerinha que estudei na escola primária que, apesar dos mais de vinte anos de separação, hoje formamos um grupo coeso e muito animado. Como esquecer dos meus primos e primas? Mais do que familiares, são parceiros da vida, inspiração e leitores ávidos deste modesto blog. Por fim, agradeço à minha grande família, especialmente aos meus pais e irmãos, porto seguro de todas as
horas.
Afinal, meu aniversário acabou. Estou em casa agora. Ganhei
poucos presentes, não ouvi uma declaração de amor, mas recebi flores de uma
amiga. Vou dormir sozinha daqui a pouco.
Tenho que concluir esta crônica, mas fiquei olhando para a tela por muitos
minutos e não encontrei nada de muito impactante para fechar. Portanto, por
falta de palavras minhas, uso as do Frejat para felicitar a todos os
aniversariantes esperançosos como eu:
Quem
é esta pessoa que tenho convivido nestes últimos anos? Uma mulher estranha que
invadiu a minha casa, o meu espaço e tem se instalado de maneira irresistível
na minha vida.
Chegou tímida naquela tarde de outubro de alguns anos atrás quando, após um consenso, “ele” saiu pela porta para não voltar mais. No início permaneceu calada,
respeitando minha dor, mas aos poucos foi se apresentando.
Ajudou-me a me desfazer de medos bobos como o medo do escuro,
de fantasma, de bichos e, principalmente, o medo de ficar
sozinha. Aliás, fez-me ver que essa condição não é tão mal assim e que eu sou
uma boa companhia, inclusive para mim mesma.
Ela me levou a tomar atitudes que já
deveriam ter sido tomadas há muito tempo, como o de gostar e cuidar bem de mim.
Levou-me a acreditar que algumas visitas ao terapeuta talvez me ajudassem. E
não é que ela estava certa?
Mexeu com minha a minha frágil auto-estima. Não sem grande esforço fez mirar-me no espelho para me
mostrar o quanto sou bonita e que um corpo com volume tem sua sensualidade. Comecei
a usar camisetas sem mangas, vestidos, cores, decotes, salto alto e maquiagem.
Fez-me entender que não adiantava ficar reclamando do calor, do
frio, do carro que não tenho, do meu trabalho, do meu corpo, da minha vida. Disse-me que ficar repetindo ao mundo o quanto era infeliz, mal
remunerada e injustiçada não ajudaria absolutamente nada, só me tornaria uma pessoa muito chata. Mais produtivo seria começar a fazer escolhas mais
acertadas.
Exigiu-me que abandonasse a adolescente que eu teimava em ser
e assim, tateando, porém, sem medo, adentrei, finalmente, na vida adulta. Maravilhei-me
com uma independência e liberdade nunca antes experimentadas. Parei de sentir
aquela estranha sensação de que minha vida ainda ia começar em algum momento. Comecei
a viver com entusiasmo.
Mostrou-me que os sonhos de outra época eram bonitos, mas, como
sonhos que eram deveriam ficar no seu devido lugar. Segura, positiva e animada
disse-me que eu deveria ter projetos concretos e realizáveis e me ensinou a
estabelecer prioridades.
Quanto aos homens, me disse para ser
compreensiva e tolerante, mas que eu me respeitasse acima de tudo e que nunca mais me contentasse com migalhas. No entanto, me fez entender que deveria aceitar de bom grado e sem culpa alguns momentos de
felicidade.
Preveniu-me que, vez por outra, receberei visitas indesejáveis como a tristeza, a insegurança, a carência, o cansaço e o desânimo. Disse-me que todo ser humano tem seus altos e baixos, e que - vá lá entender o porquê - estas visitas fazem-nos crescer. Me prescreveu uma receitinha para não deixá-los instalar-se: Dê atenção a eles apenas por um dia, no máximo dois. Durante este período, chore um pouco, coma chocolate, presentei-se com um vinho - mas nada de beber em copo comum, sirva-se numa taça -, veja uma comédia romântica, ligue para um amigo ou amiga. Durma e acordará com uma nova perspectiva.
Mulher estranha esta!
Onde você estava nos últimos trinta e
oito anos?
Como assim “dentro de mim”?
Como foi possível nunca ter te encontrado antes?
De
qualquer maneira, agradeço por ter despertado e se revelado no momento certo.