segunda-feira, 7 de maio de 2012

No sense

Eu gosto das pequenas viagens de ônibus. Quando essas duram até seis horas, chego a preferir ônibus a carro ou avião. Aprecio-as ainda mais quando estou sozinha.
Como raramente eu consigo dormir e ultimamente tenho sentido enjoo quando tento ler em ônibus, nada me sobra para fazer. E assim, neste ócio imposto, me entrego às reflexões e devaneios.
Tendo como cenário a paisagem que vejo através da janela, meu pensamento vai mais longe do que aquela casinha lá no topo daquele morro. Rostos, casas, animais, praia, pasto, placas, carros e tantas outras coisas que avisto apenas de relance, me fazem pensar nas infinitas possibilidades da vida humana. Aproveito estes momentos de devaneio para avaliar e criar novas perspectivas para a minha própria vida.  Dependendo do meu estado de espírito, sorrio ou choro sozinha com as minhas reflexões.
No domingo passado fiz uma dessas pequenas viagens. Um trajeto que conheço a minha vida toda, mas que sempre me comove e encanta.
A despeito da minha recém-tendência a enjoar, comecei a folhear um livro de coletânea de poesias pornográficas. Estava me divertindo com a linguagem chula e me surpreendendo com as abominações próprias deste tipo de escrita. De vez em quando eu parava a leitura para olhar pela janela e me entregava às minhas queridas e desejadas reflexões – como pode você imaginar, nada muito “puro”.
Eis que, com pouco mais de meia hora de viagem, o ônibus para e entra mais uma passageira. O motorista avisou que não havia mais lugares disponíveis. Ela, no entanto, entrou assim mesmo e sentou no chão, no degrau ao lado dele - eu estava sentada a dois ou três bancos atrás do motorista, ou seja, muito perto de minha nova colega de viagem.
Foi aí que começou o meu inferno...
A tal mulher deu início uma conversa com o motorista que mais parecia uma pregação interminável sobre céu, inferno, Jeová, Jesus, pecado, livre arbítrio, dentre outras coisas do gênero. Com uma soberba inabalável, citava versículos do evangelho e cada vez mais animada, sua voz ia aumentando de volume. Chegou a pregar tão alto e com tanta propriedade que conjecturei, infeliz, a condenação de minha pobre alma pecadora.
No entanto, voltei à razão e vi que o projeto de pastora é que estava discursando no lugar errado. Minha irritação foi crescendo, crescendo a ponto de eu, sem sentir, pensei em voz alta e soltei “que mulher sem noção!”.

Para discorrer sobre o tema, usarei a brilhante definição elaborada pela minha amiga Ana Cristina:

Sem noção: condição que acomete pessoas de todas as classes sociais. Algumas pessoas nascem sem noção, outras manifestam apenas em determinadas ocasiões (em restaurantes, por exemplo, quando destratam garçons). A principal característica dos "sem noção" é não dispor em seu organismo - em especial no cérebro - um dispositivo que leve à reflexão antes de falar e/ou agir. Ou seja, os "sem noção" não reconhecem que são inconvenientes, desagradáveis, e que levam os seus amigos, ou as pessoas à sua volta, a sentirem "vergonha alheia".
Pense comigo. As pessoas estão “presas” num ônibus. Talvez elas esperem usar este tempo para tirar uma soneca, relaxar, fazer palavras cruzadas, pensar em qualquer coisa ou em coisa alguma, ler poesia pornográfica, conversar com seu companheiro de viagem ou seja lá o que for  e surge alguém para perturbar o silencio de sua viagem? Não é um simples trajeto de ônibus. É uma viagem! Você tem um destino mais ou menos longe da sua casa. Não dá para pedir para o motorista parar o ônibus para você descer.
Cotidianamente nos deparamos com os “sem noção”. Eu mesma já fui bastante inconveniente quando insistia em me fazer de engraçada e acabava fazendo brincadeiras ou comentários completamente dispensáveis. Mas ainda bem que tenho bons amigos que me apontaram de maneira muito carinhosa este desvio de conduta e assim, com uma boa dose de esforço diário, tenho tentado pensar e me colocar no lugar do outro antes de falar e fazer certas coisas.
Apesar de ser uma otimista incorrigível, percebo que temos vivido um período de individualismo muito exacerbado e com isso as pessoas têm perdido a capacidade de autocrítica. São tantos exemplos de pessoas ou situações “sem noção” que daria para escrever um livro ao invés desta crônica, mas vamos a alguns poucos:
Sem noção é aquela pessoa que não cede o lugar a um idoso, a um portador de deficiência ou a uma mulher grávida no transporte público. É alguém que faz uma visita levando o seu cachorro sem ao menos perguntar se o visitado - que, a propósito mora num apartamento - se incomodaria. É aquele torcedor que comemora a vitória do seu time gritando na rua às 23 horas de um domingo. É o dj de ônibus. É aquela pessoa que fala alto no museu, no teatro, no cinema. Totalmente sem noção é quem ri e faz piada da desgraça alheia. É o cara ou a mulher “que não trepa, mas não sai de cima”. Tem também a modalidade "casal sem noção" que resolve discutir a relação em público. Sem noção é quem pede dinheiro emprestado a um amigo ou familiar sem ter pago a dívida anterior. Tem aquele típico “sem noção” em seus carros com auto-falantes possantes que esquecem que a praia e a rua são de todos e botam a tocar ritmos de gosto duvidoso – me perdoem o elitismo – a uma altura tão absurda que você acha que o seu coração vai pular pela boca. Sem noção é o estudante que diz “hoje tem prova de quê?”. É fazer listinha de compras para alguém que está indo viajar de férias. É aquele que quer ter uma conversa séria às 22 horas de uma sexta-feira. É quem propõe reunião de trabalho no sábado de manhã. É quem vive reclamando da vida. É quem monopoliza a conversa. É quem escreve demais.
E assim, tentando deixar de ser uma no sense adianto-me a fechar este texto recomendando o cultivo de uma qualidade importante para o ser humano, mas que anda meio esquecida: a empatia, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro. Afinal de contas, como já diz um certo José Datrino, mais conhecido como Profeta Gentileza, um sem noção do bem:






3 comentários:

  1. Prá variar, mais uma gostosura de crônica prá ler.

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  2. "Sem noção é o estudante que diz “hoje tem prova de quê?” Eu acho que já vi esse filme muitas vezes! Ainda bem que não sou sem noção nesse sentido! kkkkk

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  3. Você me encanta minha irmã. Estou com saudade de falar contigo.
    Faço minha as palavras de Marta.

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